sábado, 15 de novembro de 2014

ECOS DO SILENCIO / Série: CONTOS VERÍDICOS

Em 1957 meu pai à duras penas amealhou a exata quantia para adquirir um comercio fincado numa beira de estrada lá naquele sertão de Minas Gerais. Era seu plano de vida desde que se casou com minha mãe.



Cafezais da Gurita, município de Bambuí- M.G na década de 50.
Depois de enfrentar intermináveis empreitadas na fazenda do Sr Valdemar (MURILO), ou mesmo passar temporadas nos cafezais da Gurita sempre arrastando minha pobre mãe comigo enganchado nos quadris, ele conseguiu angariar uma certa quantia em dinheiro, e isso o deixou mais próximo de realizar seus intentos. Terminando a safra e de volta à nossa, ele soube por intermédio de cunhado João Messias que um tal de "Tino" queria vender um ponto no Brejinho, uma pequena comunidade situada á quinze quilômetros de Bambuí. Sem titubear procurou o homem e fechou negocio de porteira fechada. Eu, nessa época, era apenas um garotinho de dois para três anos, e como não tinha irmãos, costumava prestar muita atenção ás conversas dos adultos. Assim fiquei sabendo de todos os planos de meu pai, e sem poder fazer nada, passei a sofrer por ter que abandonar a cabana onde nasci e aprendi a dar meus primeiros passos.  Mas por outro lado, estava curioso em conhecer  a tal venda que meu pai tinha comprado.

O PRIMEIRO MUNDO


A casa dos meus avós. Foto de 1964.
Estava com pena dos meus avós que moravam de vista da porta da cozinha e que diariamente eu tomava a trilha funda que me levava até lá. Eu tinha também os meus avós por parte de mãe, só que esses moravam lá nas terras do fazendeiro Zé Cuta, um pouco distante, mas quinzenalmente eu e minha mãe os visitávamos. Como sabia que o vô Tomé gostava de um cigarrinho de palha, eu pegava um bom pedaço de fumo de corda na venda e lhe prensenteava. Tenho ótimas recordações deles, mas isso será uma outra história que contarei depois. Continuando o relato sobre os avós aqui da Vargem, minha mãe se irritava quando eu fugia sozinho para visitá-los, ela temia que eu fosse picado por alguma cobra escondida nas moitas de capim da trilha. Mas não tinha jeito, era só um descuido dela e lá ia eu trilha abaixo. Eu apreciava ver a satisfação deles com minha chegada, e quando o vô Luiz me pegava no colo me contando inúmeras histórias, eu me via na pele de cada um dos personagens. Acho que por isso me transformei nesse mero contador de histórias. Não me esqueço da brincadeira de ficar tentando pegar a fumaça do seu cigarro de palha, dávamos boas gargalhadas. E logo depois a vó Olímpia me trazia uma daquelas deliciosas bananas defumadas que ficavam penduradas acima do fogão de lenha.

...bananas defumadas que ficavam penduradas acima do fogão de lenha.
Mas tudo que é bom dura pouco, logo eu escutava minha mãe gritar lá na trilha, ela sabia que eu estava com os avós. Era hora de ir, e em casa já topei os poucos móveis que tínhamos já embalados para a viagem. O tio Toinzinho viria na manhã seguinte com o carro de bois do meu avô para nos levar até a nova casa. Naquela noite eu dormi com o coração apertado em saber que deixaria para traz o adorável lar onde nasci. O que seria feito de nossa casinha?! Ah!! Já tinha a solução, recomendaria ao meu avô que cuidasse bem dela, e frequentemente eu viria visitá-la! Com esses pensamentos tiritando na minha cabeça eu peguei no sono.

Na manhã seguinte despertei com o estalar de gravetos queimando no fogão, era minha mãe preparando o café, concluí que logo o tio chegaria com o carro de bois. De supetão saltei da cama e tratei de aproveitar os últimos momentos ali. Nossa casinha era simplesinha, coberta com capim e com paredes de barro sustentadas com ripas tiradas dos troncos de coqueiro, mas eu a amava. Foi ali que aprendi a ver o mundo com meus próprios olhos, e agora eu a deixaria. O tempo nas despedidas parece voar, logo escutei o carro cantar e o rangido de seu eixo agora me parecia demasiadamente triste, sim, melancólico demais, na verdade era eu que chorava. Pensei em pedir meu pai para desistir da ideia, mas sabia que de nada adiantaria. Por outro lado eu não tinha esse direito, era meu pai que corria atráz de seus ideais. O tio ferroou os bois rabiando o carro no terreiro, e meu pai, auxiliado por minha mãe começou a carregar a mudança. Eram poucos os móveis, móveis no sentido da palavra, mas somava á mudança apenas uma  simples mesinha de quarto, um rústico catre onde meus pais dormiam e meu berço também feito rusticamente. A prateleira e uma caixa de roupas onde eram guardadas os ternos domingueiros. Não posso me esquecer da antiga máquina de costura á manivela, com ela remendava-se as roupas que meu usava no trabalho nas roças de milho e feijão.

__Chegara o terrível momento da partida, gritando com os bois o carro arrancou choroso em direção á estrada do atalho, e de lá arrisquei uma última vista à minha pobre cabana, pareceu-me que ela acenou um comovente adeus.


Pareceu-me que ela acenava-me um comovente adeus.
E foi definitivamente mesmo um adeus. Eu tinha planos de voltar, mas diante de tantas adversidades que uma criança na minha idade tinha na época, eu nunca mais retornei  ali.

 A VENDA DO BREJINHO

__A nova casa era  maior, mas construída nos mesmos moldes que minha casinha lá das Vargens, porém era coberta com telhas vindas de longe. Cercada por um denso cerrado e á beira de uma estrada bastante cortada significava que ali passava muitas pessoas diariamente. Não esperei meu tio parar o carro, pulei  logo no chão e tratei de conhecer os arredores. Era tudo muito estranho para mim, a densa mata que cercava o local metia medo. Ali, certamente habitavam os personagens das histórias que meu avô me contava.

Venda do Brejinho - município de Bambuí-Mg /1958.
__Comprar esse ponto foi um dos melhores negócios que meu pai fez na vida. O seu ideal de ser um comerciante naquelas bandas surtiu bons frutos, o estoque cresceu, a freguesia assídua da comunidade sempre mantinha os pagamentos em dia e em dois anos de trabalho ele já tinha capital para comprar aquelas terras que circundavam o local. Eu, na simples existência de criança vivi ali também bons anos de minha vida, apesar de nunca ter me esquecido do meu singelo lar lá das Vargens.  Sem irmãos, eu usava minha criatividade em novas brincadeiras. Na vizinhança tinham outros meninos, mas por serem  suas  casas um pouco distante não dava para encontrá-los todo dia. Não sei porque meus pais não tiveram mais filhos, dizem alguns parentes que meu pai não queria estragar o belo corpo que minha mãe tinha. Era sabido que mulher que paria muitas crianças, logo ficava feia.

UMA ASSUSTADORA MANIFESTAÇÃO

__Mas não vivemos ali somente tempos bons, tivemos maus momentos também, e um deles foi que certa noite lá pelas tantas, os meus pais e os clientes que ainda bebiam e jogavam truque presenciaram um estranho fenômeno. Eu e minha mãe já tínhamos nos recolhido para dormir, mesmo com o estardalhaço que os jogadores faziam, mas dormir como?!
Entre um soco e outro na pobre mesinha já de pernas bambas ouviu-se ao longe gritos de peões boiadeiros. Afinando os ouvidos já escutaram um barulho ensurdecedor cada vez mais próximo, estranharam tal evento aquela hora, e entreolhando-se prenderam a respiração para escutar melhor o que estava acontecendo.

...e entreolhando-se prenderam a respiração para escutar melhor o que estava acontecendo.

Era o estouro de uma boiada arriscou alguém, e em poucos segundos, os animais se aproximaram rapidamente passando sobre a casa como uma locomotiva desenfreada fazendo vibrar móveis e garrafas na prateleira. Os sibilantes gritos dos peões agora tinham um timbre sobrenatural e eram com se estivessem dentro da casa, atravessando como facas a alma daqueles pobres homens, mas ninguém via nada. Os mugidos daquela boiada enfurecida misturavam-se ao som de coisas quebrando lá fora. No quarto, minha mãe segurando um rosário tremia dos pés a cabeça tentando acender uma vela. E eu que ainda não conseguira pegar no sono, não entendia porque todos se calaram de repente. Após aqueles minutos que pareceram mais uma eternidade, conforme contou meu pai, o infernal barulho foi se distanciando para as bandas de Bambuí ficando apenas o som do  vento soprando no telhado. Empalidecidos e sem coragem de sair ao terreiro, um deles com voz rouca arriscou um comentário, que ao meu pai pareceu mais uma súplica. Sentindo também o pavor que eles passaram, meu pai estendeu-lhes colchões no chão da venda para que esperassem o amanhecer.


__Aquele fenômeno foi presenciado por todos, menos por mim, a única criança na casa. No dia seguinte pensava-se estar o terreiro um verdadeiro pizeiro de cascos e destruição, mas não tinha sequer uma marca e tudo estava em seu devido lugar. Disse o senhor Antônio Tomé,  um dos moradores mais velhos da comunidade, que aquele fenômeno se dava de sete em sete anos e eram espíritos atormentados de antigos peões que tocavam boiadas naqueles sertões. E ali, no lugar onde fora construída a venda era o ponto de parada para descanso das boiadas que vinham de muito longe. Certamente, finalizou o senhor Antônio Tomé, morreram pecadores inconfessos, e sem ganhar a luz ainda vagavam nas antigas trilhas á procura de um portal para a salvação.
Naquela semana mesmo minha mãe pegou a jardineira e foi á Paróquia de Bambuí solicitar a realização de uma missa no local. Aproveitou e trocou uma imagem de N.S. Aparecida colocando-a num oratório de madeira no alto das prateleiras. Depois dessa missa nunca mais ouviu-se o estouro da boiada, acredita-se que aquelas almas perdidas receberam o perdão por seus pecados. Hoje, meu pai relembra esse fato como se tivesse acontecido ontem, tanto que foi marcante para ele. E eu sinto um arrepio só de pensar que eu estava lá e por algum motivo fui poupado de presenciar o fenômeno. Mas para os que o vivenciaram, aqueles minutos que antecederam o acontecido, foram os inquietantes sons do silencio.

Mas para mim, inquietante, foi  jamais ter retornado á minha humilde cabana lá das Vargens de Bambuí. Quanta saudade sinto daqueles dias! Em seus  cômodos vazios de minha presença, certamente ecoarão para sempre as vozes e os risos alegres dos bons momentos que vivi ali.

A Cabana coberta com capim, ao fundo a casa de meus avós.

No local não tem mais nada, nem mesmo sobraram escombros.  Aquela existência ficou apenas na lembrança de um garotinho. Mas hoje, quando cai a chuva, em pensamentos eu vejo gotejar do capim que cobria aquela humilde cabana, os pingos transparentes das chuvas de novembro. E penso que quando estiar, poderei visitar novamente a casa das deliciosas bananas defumadas. Esse desejo foi, e sempre será para mim, o inquietante eco do silencio, um chamado que nunca se calou.

OBS: As imagens e texto são de autoria de Joel Donisete de Oliveira, e todos os fatos narrados são verídicos. Proibido cópias e ou veículação sem o prévio consentimento do site. Todos os direitos reservados.