segunda-feira, 25 de novembro de 2013

VISÕES ATERRADORAS



Antes de abordar o relato principal dessa postagem, gostaria de falar um pouco do local onde ocorreram os fatos. Achei importante pois trará certamente mais conhecimento ao leitor. No mundo em que vivemos hoje, invadido por tecnologias cada vez mais avançadas, e espremido por grandes centros comerciais onde se pode comprar de tudo um pouco, talvez não seja possível para a maioria das pessoas conceber a realidade da década de 60. Nos pequenos e afastados lugarejos, os suprimentos chegavam meses ou anos depois de serem lançados no mercado, e não era diferente na pequena Medeiros, no estado de Minas Gerais. Com uma rua central ainda de terra batida, onde se aglomeravam os poucos moradores, essa comunidade era servida apenas pelo "Boteco do Tuniquim".

Em Minas Gerais, vista aproximada da praça central de Medeiros na década de 60.
Esse estabelecimento tinha em sua linha de itens, aviamentos, tecidos e principalmente o sal, o açúcar, a farinha e o fumo de rolo. Alguns enlatados como a sardinha e as bexigas de salame compunham também a lista de produtos. Mas o artigo principal era a cachaça de barril. Esse produto era largamente consumido pelos matutos da região, acostumados ao trabalho duro nas lavouras e mesmo nos sítios com atuação na pecuária. Eles tinham naquele estabelecimento o único local de diversão nos finais de semana. Na prateleira, junto aos produtos expostos um antigo radio dava as notícias em mais uma edição do jornal “ A Voz do Brasil”, isto certamente era um atrativo. Mais diversão se quisessem, não fosse nos pagodes realizados na casa de alguem, tinha que ser em boas prosas ali no boteco. Essas reuniões iam até altas horas da noite, regadas sempre com a branquinha derivada da cana de açúcar, e nessas noitadas, tinha sempre os que bebiam além da conta.
Um desses matutos era o Candeia, ou melhor, o compadre Nenem. Este veio a ser meu compadre alguns anos mais tarde quando meu primeiro filho nasceu, convidei-o para padrinho do rebento. Nas longas rodadas jogava-se truco, falava-se das roças, e os solteiros, das pretensões de namorar lindas cabrochas da comunidade. E tinha os que contavam causos assustadores como o da mulher fantasma, contavam amedrontados que a aparição era uma mulher de cabelos louros que aparecia em noites escuras e toda vez que se desviava o olhar dela ela crescia, crescia chegando a ficar na altura dos postes de iluminação. Mas o compadre era destemido, marrento demais, e na hora de sair pagava a conta e pedia mais uma garrafa para ir bebericando rua afora. Mal sabia ele que naquela noite também seria vítima da loura fantasma. Vítima não, pois na verdade, nunca se soube que essa aparição tivesse feito mal aos seus expectadores, apenas lhes aparecia, talvez tentando alguma comunicação. Alguns, com mais ou menos sensibilidade ou livres do letárgico líquido do boteco do Tuniquim, fugiam apavorados.


Mas, tonto do jeito que estava seria impossível á visitante do além manter contato com ele naquela noite. Assim, frente á frente se fitaram por longos minutos, até que num piscar de olhos a figura esvaneceu-se. O compadre ficou ali parado ainda por vários minutos tentando entender tal fenômeno, e então, tomando mais um gole de cachaça seguiu seu caminho para casa, onde insistentemente pediu á sua mãe que não acendesse luz alguma, estava assombrado.


Hoje, folgadamente na varanda de sua residencia em Uberlandia, ele ri dessas passagens. Diz que ficou frente a frente com a loura fantasma e que não teve medo, apenas a achou "alta demais". Comenta que estava de porre naquele dia mas que vivenciou cada segundo do encontro, e que hoje, se a encontrasse em sã consciencia, consideraria sua condição de beato.

De volta á minha casa, não pude deixar de me lembrar de um caso que se passou vinte anos mais tarde ali próximo de Medeiros. Eu havia ido visitar meu pai lá no Café Novato, bem ali perto das Paineiras. Acompanhava-me o meu filho mais velho com quatorze anos. Depois de um dia inteiro onde matamos a saudade do velho retornamos já bem tarde da noite. Comentava-se que muitas pessoas já haviam tido experiencias medonhas naquelas estradas, principalmente a noite. Lembro-me que meu sogro relatou que certa vez durante o dia andando a pé por aqueles caminhos alegrou-se com a possibilidade de pegar uma carona quando viu um novíssimo carro branco vindo em sua direção. Animado afastou-se para a margem e preparou-se para acenar ao motorista, mas incrivelmente a carona sumiu diante de seus olhos. Eu nunca me preocupei com essas histórias, sempre achei que não passassem de folclore, mas naquela noite o meu rapazola tambem viveria uma desgradável experiencia. Por ser uma estrada de terra batida eu mantinha uma velocidade baixa, em média entre os sessenta ou setenta quilômetros por hora. De repente o menino gritou apavorado dizendo estar vindo ao nosso encontro  um animal sem cabeça. Segundo ele, a estranha criatura trazia pendurado ao pescoço decepado um embornal vermelho que esvoaçava com o galope. 

A aparição cruzou o veículo como um bólido deixando uma nuvem de poeira. E repentinamente sumiu deixando no silencio da noite o barulho de cascos do galope desenfreado. Eu não visualisei o acontecimento e nem ouvi, mas não duvidei diante de quão alterado ficara o rapaz. E com um arrepio na espinha pisei fundo o acelerador na direção das ainda longínquas luzes de Bambuí. Hoje fico pensando porque certas pessoas conseguem ver esses fenômenos e outras não?!
O meu menino hoje já é homem feito e nunca esqueceu-se dessa fatídica noite.
Por vezes, quando viajei a noite meus companheiros disseram estarmos sendo seguidos por luzes e que depois de um certo tempo as viam tremular e sumirem no solo. São fenômenos ainda inexplicáveis, e a única certeza que tenho é que esses acontecimentos não são apenas " histórias que o povo conta!".

Nomes e locais são fictícios para proteção da identidade dos envolvidos. O relato foi textuado em primeira pessoa e comparados á outros contos, são ou podem ser meras coincidencias. Todos os direitos reservados.