sábado, 13 de abril de 2013

O HOMEM QUE VENDEU A ALMA AO DIABO


Ainda hoje vinte anos depois de sua morte corre em boca miúda que Domingão vendera sua alma ao diabo em troca da grande fortuna que possuía. Em 1965, sendo de família pobre não tinha nem um pangaré para se locomover naquele sertão de Minas Gerais. Nesta época ainda era um jovem intrépido e corajoso, um tanto malicioso  e malandro posso dizer, pois ao contrario dos irmãos vivia a correr atráz de ganhos fáceis. Mas estranhamente começou a crescer na vida, toda empreitada a que se dispunha lhe era lucrativa, assim, á olhos vistos tornou-se da noite para o dia um rico fazendeiro na região. Os pastos de sua bela propriedade custavam a caber as cabeças de gado que cada vez mais aumentava. Agora já cavalgava pela imensa propriedade numa linda mula preta arreada com cela adornada com cravos dourados. A dureza no trato que lhe era peculiar em seus tempos de pobreza agora rico subira-lhe a cabeça. Tratava os peões da fazenda com chicote e palavrões e proibia todos de transitarem em suas terras sem permissão. Conta uma senhora amiga minha, que em tempos de mocinha precisou usar o atalho que passava pela fazenda desse tal Domingão, e que ao tentar cruzar a cerca de arame farpado foi barrada por ele que chegou á galope em sua mula preta. 


Segundo ela, trazia o maldito um chicote brandido ameaçadoramente dizendo que se passasse por ali seria chicoteada até a morte. Com humildade pedira a ele que precisava usar o atalho pois tinha pressa em chegar a sua casa antes que escurecesse. Mas ele não permitiu, teve a moça de dar a volta lá pelas bandas do Zimpenhado. E não eram só estes os casos de maldade que cometia, os seus empregados lhe temiam como á uma assombração. Contam alguns que certa vêz tomou ele de um cacete e bateu no próprio pai até deixar o velho estirado no chão, e como se não bastasse, ainda tomou-lhe o pequeno quinhão de terra que fazia divisa com suas terras. Sua fama de homem mau correu por toda a região, e cada vez mais se tornava dono das propriedades ao seu redor, conseguiu em pouco tempo uma fortuna imensa. Mas, aos cochichos de boca pequena a sua verdadeira história foi descoberta. Certa noite um dos seus peões, notando que saía tão tarde, o seguiu até uma encruzilhada. Escondido e arrependido de ter seguido o patrão tremia de medo de ser descoberto, mas acobertado pela escuridão da noite viu quando Domingão montado em sua mula preta encontrou-se com outro cavaleiro que surgiu do lado contrario. Afinou os ouvidos para escutar o estranho palavreado que usavam para se comunicar, e com um arrepio que lhe doeu até os ossos viu que o cavaleiro que conversava com Domingão tinha chifres que sobressaíam sobre o chapéu. Não teve dúvidas, o seu patrão estava falando com o diabo e certamente vinham dali a fonte de tantas maldades, a riqueza e a prosperidade em tão pouco tempo. Apavorado  e rezando o Credo bem baixinho se afastou silenciosamente guardando aquele segredo até a morte de Domingão, quando na noite em que era velado seu corpo sumiu misteriosamente. A família, para não passar vergonha e ter o que sepultar colocou no caixão um tronco de bananeira e não deixaram ninguem abrir. 


Essa é a história de Domingão, o homem que vendeu a alma ao diabo, teve em vida muitas riquezas, mas agora provavelmente paga caro os juros do dinheiro que conseguira. Como Domingão temos o livre arbítrio de escolher entre o bem e o mal.  O bem pagamos agora com a peleja para alcançarmos nossos objetivos. O mal, conseguimos tudo facilmente, mas valerá a pena?

Os nomes citados neste conto são fictícios, e qualquer semelhança com outros relatos é mera coincidência. Proibido cópias e ou reprodução sem prévia autorização da administração do site.Todos os direitos reservados.