sábado, 11 de fevereiro de 2012

O FANTASMA DO MATO FRIO



Da  Série "CONTOS VERÍDICOS"
__Do acontecimento que lhes passarei a relatar, eu tenho vagas lembranças, certamente pela pouca idade que tinha na época.  A riqueza de detalhes descritas foram relatadas por meus pais depois que eu me tornei um rapazola. Corria o ano de 1958 e estávamos nos cafezais da Gurita ajudando a colher a safra. A colheira durava de três a quatro meses e durante esse tempo os trabalhadores ficavam hospedados nos galpões da fazenda. Meu pai, minha mãe e eu que na época estava com apenas três anos de idade acampamos numa cabana construída às margens de um rio pois não sobrara alojamentos. Era uma situação um tanto precária mas tínhamos de suportar pois precisávamos do trabalho. Certo dia meu pai teve que ir ao povoado buscar suprimentos para a cozinha, então, depois do trabalho montou seu cavalo e cavalgou até o povoado de Bambuí, retirado dali aproximadamente uns quinze quilômetros.
Inicialmente tinha a idéia de apanhar rápidamente as encomendas de minha mãe e retornar para nos fazer compania, pois diziam que não era conveniente ficar sózinhos naquelas bandas. Na cidade, após as compras, meu pai se preparou para voltar, mas quando saía topou um dos seus amigos dos tempos de solteiro que convidou-o para tomar um trago. Como iríam para o mesmo lado, logo seria uma boa compania, pensou meu pai, nada viu de mal em acompanhá-lo num gole. Mas como era de se esperar, não ficaram apenas num trago, depois de algumas horas, os dois já estavam bem altos e ríam de todo caso que lhes vínha à lembrança. Lá pelas onze, quase beirando a meia noite, o vendeiro deu sinais de querer fechar o estabelecimento. Então, cambaleantes, os dois saíram à porta, mas seu colega não chegou ao cavalo, desabou pesadamente no chão, dominado pela cachaça. Meu pai pelejou para reanimar o companheiro mas não houve jeito, deixou o parceiro ali mesmo estirado na calçada, precisava ir para casa lembrou-se preocupado. Com certa dificuldade conseguiu montar e esporeou sem dó o pobre animal que saiu em disparada rua acima. Depois de alguns minutos já podia ver de longe as luzes do povoado ficando para tráz. O vento fresco que lhe batia o rosto pelo menos servia para lhe clarear as idéias. Tinha ainda pela frente uma boa caminhada, e ainda teria que passar pelo mato frio, uma densa floresta que dizíam ser mal-assombrada. Com um arrepio na espinha lembrou-se de várias histórias que acontecera ali com alguns companheiros. Pensou em voltar ao povoado mas sentiu-se avexado, e mesmo assim não poderia, tinha que estar no trabalho bem cedo no outro dia. Então, com o cavalo a passo aproximou-se do local onde a  estrada desaparecia numa profunda escuridão, puxou as rédeas parando o animal, olhou de volta para o povoado e não enxergou mais as lúzes, estava sózinho. Praguejou baixinho amaldiçoando  o companheiro que desabara de bêbado. Sem opção e tomado de um resto de coragem, esporeou com violência o cavalo que partiu em disparada sumindo mata adentro. O pobre animal, sempre fustigado, mal tocava os cascos no chão, parecia ter asas. A lua, que naqueles dias costumava iluminar o céu, fôra coberta por densas núvens tornando ainda mais macabras as sombras do arvoredo. Parecia de propósito, tudo culminava para aterrorizá-lo. Meu pai, não se importando com os galhos que passavam rentes à sua cabeça, continuou a esporear o cavalo que mostrava claramente não querer avançar. Mais alguns metros e repentinamente o animal estacou.

Algo que somente o corcel conseguia enxergar o impediu de continuar. Sentindo um baita medo meu pai acariciou o pescoço do animal tentando dar-lhe confiança, mas ao passar pelo local que o animal estava evitando este bufou e gemeu como se algo muito pesado tivesse pulado em sua garupa. O pobre animal mal conseguiu andar, e meu pai apavorado, sentiu uma enorme friagem nas costas, uma presença nefasta passara a lhes fazer compania. Com dificuldade, o pobre animal conseguiu andar por alguns metros, e então, meu pai, com o coração quase a lhe saltar pela boca lembrou-se de Nossa Senhora Aparecida; elevou-lhe o pensamento e rogou que o livrasse daquela coisa medonha. Contou meu pai que a santa não lhe faltou, e imediatamente liberto da carga sinistra o cavalo partiu como um raio para fora da densa floresta. Meia hora depois ainda galopando, agradeceu à santa tornando-se um respeitoso devoto. No rancho, eu acordei no meio da madrugada e vi minha mãe sentada na cama, parecia chorar, estava certamente nervosa pela demora de meu pai.


Ela percebeu que eu havia despertado, foi até a cama, me acariciou e tentou fazer com que eu adormecesse novamente. Mas antes de pegar no sono eu vi seu rosto iluminado pela luz da lamparina, e notei que escorriam lágrimas de seus olhos. Fingi que dormi para deixá-la à vontade, mas na minha inocência de criança sabia que quando meu pai chegasse eles iriam brigar. Algum tempo depois escutei barulho de cascos de cavalo se aproximando, era meu pai. Ao adentrar o rancho, minha mãe, muito nervosa, perguntou a ele porque tinha demorado tanto. E ao se aproximar sentiu o cheiro de bebida, logo concluiu que ele estivesse estado numa tal casa de "mulheres da vida" ( Esse termo significava na época prostituiçao feminina). Afirmando estar inocente meu pai a segurou pelos braços e a sacudiu violentamente, pois já estava nervoso pelos acontecimentos da estrada. Minha mãe também muito nervosa, usou suas unhas para desferir violentas unhadas no rosto de meu pai, fôra o bastante. Talvêz, ainda atordoado pelo efeito da pinga que tinha ingerido, ele se descontrolou desferindo um violento tapa no rosto de minha mãe. Nestas alturas eu já tinha aberto um berreiro tão alto que provavelmente acordou toda a bicharada da floresta. Mas a minha mãe, uma cabocla nova e forte, se defendeu de todas as maneiras. Engalfinhados na cama, meu pai a segurou pelos braços, e então, a discussão que começara tão rapidamente acabou. O acesso de raiva que meu pai tivera se transformou bem depressa em arrependimento. Talvêz, acredito eu, pela choradeira que aprontei. E aí vi quando meu pai abraçou minha mãe e falou baixinho em seu ouvido, pedindo que o perdoasse. Minha mãe, vendo os ferimentos causados pelas unhadas que lhe havia desferido, aceitou seu abraço e o perdoou. Assim, os dois, reconciliados, deitaram ao meu lado. Tinham pouco tempo para descansar, logo seria hora de ir para a lida. Trabalharam mais uns dois meses nas lavouras da Gurita, até que acabou o trabalho. Agora voltaríamos para o conforto de nossa casinha lá nas terras do vô Luiz. Me fazia falta os carinhos de meus avós, e também queria deixar para traz as lembranças daquela terrível noite. Desejava esquecer a peleja da minha mãe na colheita do café carregando aquela escada,  e também a expressão sofrida que eu notava em sua face.

Apenas levaria lembranças boas; as brincadeiras que improvisei com as crianças dos outros trabalhadores e as divertidas perseguições aos passarinhos.   Levaria também o aprendizado dos rústicos desenhos que eu rabisquei na terra assoreada dos cafezais da Gurita.

Trecho do documento auto-biográfico "O Vale Encantado e o menino de suspensórios" de autoria de Joel Di Oliveira - Para ler mais acesse a guia (O VALE ENCANTADO) no topo desse blog).