domingo, 27 de março de 2011

A TÊNUE LINHA DA REALIDADE





__Entre o céu e a terra há mais mistérios que nossa vâ filosofia pode conceber. Alguém importante disse essa frase em algum tempo e lugar que não me lembro agora, mas é a afirmativa mais correta para uma humanidade como a nossa que ainda engatinha como uma  criança que tenta aprender a andar. Há algum tempo quando minha esposa esteve internada para dar a luz ao nosso caçula, ela vivenciaria uma estranha experiência. Eu estava na sala de espera e fumava um cigarro atrás do outro, tamanho era o meu nervosismo. Parecia que seria o primeiro filho que teríamos, mas nestas situações a gente nunca fica confiante, fica sempre pensando que algo pode dar errado. Na sala de partos, depois de algumas horas de cirurgia  tudo  correu bem e o bebê veio ao mundo sadio e perfeito para a Graça de Deus e nossa satisfação. Mas algo imprevisto deixaria o doutor Nicoláu e sua equipe em estado de alerta máximo. Ainda com o ventre aberto pela cesariana minha esposa sofreu uma parada cardíaca que a levou praticamente à morte. Não fosse a intervenção de forças que considero serem de além desta dimensão, eu a teria perdido para sempre. Os detalhes à seguir ela me relatou alguns dias depois quando já estava em casa no resguardo que é aconselhado para depois destas intervenções. Contou-me ela que se sentia bem até o momento em que o bebê nascera, mas logo após começou a sentir uma enorme pressão que partia dos membros inferiores e lhe subia até o pescoço cortando-lhe totalmente a respiração. Ainda consciente, concluiu que estava desfalecendoe fazendo um último esforço clamou por Nossa Senhora Aparecida, santa que lhe tem grande devoção. Após estes sintomas não sentiu mais o seu corpo, desfaleceu, e em segundos, como se tivesse sido teletransportada, se viu num grande campo coberto por uma vegetação parecida com capim. Além desta vegetação, dificultava – lhe o caminhar um espesso nevoeiro que se fazia no momento. Percebeu também que o chão era irregular, repleto de altos e baixos, fazendo com que às vezes pisasse em falso.  Após caminhar à esmo, vislumbrou através da cerração uma muralha muito alta que parecia ir de encontro às nuvens. Construída com grandes blocos de mármore tinha sua sustentação em grossas colunas cilíndricas ao longo de toda a extensão. E circundando- as, anéis dourados conferiam à estranha edificação, sobriedade e beleza inimagináveis. Era algo novo, fantástico, inusitado. E à frente do grande portal, a silhueta autoritária de um senhor de boa idade delineava-se altiva, magnânima. 
Os longos cabelos brancos caindo em cachoeira davam à ele a aparência de um Deus. E mostrou não se surpreender com sua chegada, parecia que já a esperava. Não conhecendo o lugar deteve-se tímida e educada. E curiosamente não sentiu medo, aquele senhor lhe transmitia imensa confiança, e estranhamente ele não disse uma só palavra, porque não foi  necessário.   Naqueles  segundos  em  que  estiveram  frente  à  frente, ela  me  confessou  ter sentido uma inexplicável paz de espírito. O olhar sereno e aguçado vasculhou-lhe  os  mais  recônditos recantos de sua alma e mesmo assim sentiu-se protegida, arrebatada. Emocionada conta que quando fez menção de se aproximar mais, ele levantou a mão vagarosamente e com o poder de uma Divindade à mandou retornar. Neste exato instante, novamente ela se viu na sala de cirurgia ouvindo o doutor Nicolau comentar com os assistentes que ela lhes pregara uma boa peça. Por pouco a tinham perdido, finalizara com ar preocupado. Ainda hoje eu me arrepio só em pensar neste relato, segundo o doutor Nicolau, ela sofrera realmente uma parada cardíaca e estivera desfalecida por aproximadamente uns dez minutos. Tiveram que usar o desfibrilador para reanimá-la. É inexplicável como um pessoa passa por uma situação destas, de se ver em locais onde jamais imaginou ou estivera. Mais incrível ainda foi quando o fantástico personagem à mandou voltar, e ela instantaneamente recuperou-se mediante às ações que a equipe médica lhe ministrava. Sou católico apostólico romano, mas raras vezes vou à igreja orar, deveria ir mais, mas temo e creio piamente num ser supremo que criou todo o universo. E a morte, bem, para mim a morte é apenas a perda de nossa massa corpórea, o espírito segue após para outras existencias. E certamente naquele dia minha esposa esteve às portas de uma outra dimensão, mas como não estava pronta, foi arremetida de volta à vida terrena. Mistérios ou fenômenos como este não são a primeira vez que acontecem. As vezes, debaixo de nossos narizes, o enigmático cruza sem percebermos essa frágil linha que limita o que chamamos de vida e morte. 

Textos e ilustrações : Joel D.Oliveira / Todos os direitos reservados. ( Autorização para cópias deverão serem solicitadas por e-mail.e deverão mencionar o autor e o blog.