domingo, 15 de novembro de 2015

O FANTASMA DE PALHA / DA SÉRIE CONTOS VERÍDICOS.


Como já contei em outras postagens, meu pai depois que adquiriu aquele comercio ali no Brejinho na década de sessenta se dera bem, aquele primeiro ano estava sendo muito lucrativo.
O estoque crescia e cada vez mais ele mostrava que tinha jeito para o negócio, teve até que construir um paiol para armazenar mercadorias. Além do caminhão leiteiro que transitava naquela estrada apanhando leite nas fazendas, tinha também a jardineira, esta fazia o transporte de passageiros de Bambui até o povoado de Medeiros, passando pelas comunidades existentes às margens da estrada, e a “Venda do Tião” era parada obrigatória para se tomar um café ou mesmo para comprar alguma mercadoria. O negócio cresceu tanto que minha mãe tinha que se desdobrar para dar conta de fazer quitandas para a vitrine. Fazia doce de amendoim, de leite, bolos de fubá, biscoitos, e meu pai não deixava faltar o xarope de groselha. Os rapazes gostavam de beber o preparado com as quitandas. Fora os engarrafados quase tudo era vendido no pêso, sal, açúcar, feijão, fubá e farinha, e embalados em saquinhos de papel. Eu já estava me acostumando com aquele movimento da venda. Nos primeiros dias eu me sentia um pouco acanhado, pois ainda chegavam pessoas de todos os lugares. Principalmente quando da parada da jardineira. Mas o tempo foi passando e com as brincadeiras dos fregueses eu fui me soltando. Logo já tinha intimidade com quase todos eles. O que me fazia falta era alguém da minha idade para brincar. Lá nas Vargens tinha os meninos do meu tio Tóinzinho, mas aqui, até então, eu só me divertia sozinho pelos arredores.  


Certo dia minha mãe precisou que lhe fizesse compania para ir até a fazenda do Chico Resende buscar fubá. Adorei a idéia, pois até então, desde que chegara ali, não tinha saído para lugar algum. Então, pegamos um saco de aniagem com uns vinte quilos de milho em grãos e saímos pela estrada afora. O sol estava à pino, fazia um calor danado, e depois de caminhar um bom pedaço paramos debaixo de uma árvore. O chão coberto pela sombra, era um convite para deitar sobre a grama fresca. E foi o que eu fiz, mas foi um erro, onde eu estava me deitando tinha uma cobra verdinha se confundindo com a cor da grama. Fiquei imóvel até que ela passasse por debaixo de minhas costas, pois se fizesse qualquer movimento, ela certamente me picaria. Imóvel e evitando apertá-la sobre a grama deixei que o réptil se distanciasse um pouco e saltei como um cabrito para o lado.
Foi uma experiência terrível para mim, depois desse incidente, qualquer folhinha que me encostava já era o bastante para sair pulando. Recobrado do susto reiniciamos a caminhada, e agora eu não queria mais saber de deitar em sombra alguma. Na fazenda nos recebeu o Sô Antenor, o bom velhinho que me presenteava com uma cana kayana toda vêz que ia a venda comprar víveres. Veio nos encontrar todo sorridente, era raro receber visitas reclamava. Comentou com minha mãe que se sentia muito só depois que sua mulher falecera, e também por não lhe ter deixado filhos. Ela tinha útero seco, não podia criar. Enquanto ele saiu para preparar o fubá, eu pude observar o mecanismo daquela jeringonça que moía o milho.

Era muito engraçado, tinha um côcho que se enchia com água até adquirir o peso necessário para desarmar o pilão sobre um reservatorio onde se colocava o milho. Aí ele socava os grãos até virar um pó fininho. Apanhamos o fubá e nos despedimos do senhor Antenor, reiniciando a caminhada de volta. Tínhamos uma boa subida para enfrentar, mas valia a pena. Lá do alto, a vista era deslumbrante, dava para ver o grande lago em toda sua extensão.


Retomamos o fôlego e reiniciamos o retorno para casa. Agora eu me mantinha mais perto de minha mãe, pois o matagal era denso e metia um certo medo. Lembrava-me dos personagens das histórias do meu avô, fiquei com receio que o curupira aparecesse. Certa parte do caminho notei que minha mãe segurou minha mão e apressou mais o passo. Não entendi bem por que, mas tive que correr para acompanhá-la. Então, ao olhar lá para o mato eu vi algo que me deixou de cabelos em pé. Uma figura estranha com uma vestimenta de palha saiu de traz de um tronco, observando-nos atentamente.

Agora eu entendia porque minha mãe passou a andar mais depressa. Andar não, logo já estavamos em disparada pela estrada afora. Apavorado, fiquei me perguntando o que seria aquilo, lembrei-me que meu avô falou certa vez de um índio da tribo que meu bisavô atacara, e que em suas andanças pelas matas já se deparara com aquele personagem. Pensei comigo, talvez aquela visão fosse a alma de um antepassado de minha bisavó. Após corrermos feito malucos sem coragem de olhar para tráz, avistamos nossa casa. Minha mãe narrou o fato ao meu pai, mas ele achou que era invenção nossa; disse que era coisa de nossas cabeças. Deu boas risadas e frisou; vê se assombração vai aparecer com o sol quente. Minha mãe olhou para mim e piscou o olho, deixando o assunto de lado. Mas nós sabíamos que realmente tínhamos visto algo estranho, e para mim, aquela aparição seria de agora em diante, mais um personagem a existir naquelas matas do Brejinho. A noite, quando fui dormir, fiquei pensando no fantasma de palha, estava encucado com aquela aparição. Comecei lembrar que meu avô Luíz contou que quando o bisavô Fortunato capturou minha bisavó Jaçanã ele atacou um grupo de indios. Seria esta visão o espírito de um irmão ou talvez do pai de minha bisavó!? Se esta conclusão estivesse certa explicaria porque ele não nos atacou lá na estrada, limitando-se apenas a nos observar.
Estas perguntas me acompanham até hoje. e por mais que eu busque respostas acho que nunca as terei. O que posso afirmar é que entre o céu e a terra existem mistérios que jamais nossa vâ filosofia poderá conceber. Outra teoria é que, acontecendo em tempo real existe bem diante de nossos narizes uma dimensão paralela que vez por outra sem querer acionamos em nós forças que nos possibilitam breves portais de visualização. Mas ainda engatinhamos no conhecimento dessa força, e talvez por determinação do Supremo Criador ainda não estejamos prontos para viver essa realidade. São conjucturas que passam por nossas mentes, talvez a vontade de conhecer ou repudiar o medo do desconhecido.

Venda do Tião / 1957 - 1962 - Brejinho, municipio de Bambui Minas Gerais.

O Fantasma de palha é um conto verídico, escrito e ilustrado por Joel Di Oliveira. Todos os direitos reservados.