domingo, 23 de junho de 2013

A CRUZ DE LILIA




Essa história foi vivenciada em meados da década de 60, e tem com enredo principal o amor entre uma mulher e um homem, um amor tórrido, pode-se dizer como aqueles vividos na tela de cinema. Carrega em pano de fundo intrigas, inveja e o mais odioso dos pecados, o assassinato com requintes de crueldade. Poderá essa história ter outras versões, mas a que eu ouvi de pessoas da própria localidade foi essa. Era Lilia uma cabocla linda, espigada e com lindos cabelos que lhe desciam aos ombros como uma cachoeira negra, de pele morena deixava boquiabertos todos os marmanjos da época. E caiu em sua graça, os olhares de um desses, que de agrados e belas palavras lhe conquistou o coração. Logo já eram na graça de Deus marido e mulher. Viviam uma vida simples, pois de valor nada tinham, apenas o casebre aos pés do morro no bairro Boa vista em Bambuí, no Estado de Minas Gerais. Seus dias e noites eram brindados pelo amor lindo que os uniu, até que um terceiro personagem personificado pela sanha do demônio surgiria em suas existências. Era Marly, na pele de uma linda garota jovem enfeitiçou seu marido exigindo-lhe que se livrasse de Lilia, esse era o preço que teria que pagar para que ela ficasse com ele. A jovem, aos poucos teve em suas mãos o controle do homem pois não saía dos terreiros de macumba, onde levava bebidas e trabalhos exigidos pelas entidades do mal. Lilia passou a sofrer os efeitos daquele mal na própria pele, era insultada nas ruas e em casa apanhava do homem que tanto amava. 
Seu marido passou a beber e em grande parte dos dias do mês não trabalhava e o pouco dinheiro que conseguia era para gastar em orgias que realizava na compania da outra jovem. Lilia suportava tudo aquilo de cabeça baixa, pensava que talvez fosse uma fase que um dia fosse passar, mas ela estava enganada. Certo dia, depois de uma dessas orgias, seu marido chegou em casa armado de uma peixeira e a tomou pelos braço arrastando-a para o alto do morro. Ali, certamente possuído pelas entidades do mal desferiu-lhe várias facadas. Lilia tentou em vão se desvencilhar das garras de seu marido, e ainda viva viu seus membros serem decepados um á um. Covardemente foi esquartejada ficando as partes espalhadas no alto do morro. Naqueles instantes, segundo curiosos que assistiram ao desfecho, podia-se ver nos olhos do assassino o ódio que o movia á tão cruel feito. Após concluir o intento, o covarde não fugiu do local, permaneceu em pé com a faca na mão. Seus olhos agora não expressavam mais o ódio de antes, apenas fixavam um ponto inexistente no azul céu de Bambui. A polícia local logo chegou encaminhando-o a cadeia local, livrando-o de um linchamento. Após o julgamento foi levado á Penitenciária de Neves onde cumpriu vinte cinco anos de reclusão. Terminara assim, para a bela Lilia, o sonho de um grande amor. Mas a história do assassino não ficaria somente no cumprimento dos vinte e cinco anos de cadeia. Após cumprir a pena foi libertado e o mesmo retornou á Bambui. O caso agora parecia esquecido, trabalhando aqui e ali o marido de Lilia vivia seus dias de pecador. Agora, já velho e esquecido pela amante que o levara á cometer tão bárbaro crime vivia adoentado, passando até fome. Mas ainda estava longe o término do seu sofrimento, trinta e cinco anos depois do crime foi achado morto espetado pelo ânus numa estaca de cerca de arame farpado.
O assassino de Lilia foi espetado num tronco de cerca .

Foi uma cena dantesca, relata quem o achou nos arredores da cidade. Não se sabe se aquilo foi feito por vingança á Lilia ou por qualquer outro motivo. O que se conclui é que o assassino pagou caro pelo feito, e certamente a amante que o levou ao crime também. Quarenta anos depois desse macabro acontecimento o morro onde Lilia foi esquartejada foi loteado, e, por coincidência ou não, o Santuário da Medalha foi erguido bem no local onde estava a cruz, estranho não?! Haveria aí os desígneos de uma força maior?!
Alto do Bairro Boa Vista, e ao fundo o SANTUÁRIO DA MEDALHA em Bambui, Minas Gerais.

Obs: Nomes foram substituídos para preservação dos envolvidos, qualquer semelhança também com locais e outras histórias são meras coincidências. Esse blog relata apenas o que povo conta. Ilustrações: Joel Di Oliveira -Todos os direitos reservados.