quarta-feira, 8 de maio de 2013

O ESTRANHO CAPATÁZ



Em 1972 foi o ano em que conheci verdadeiros amigos. E esses, sob qualquer condição, formariam comigo a turma das aventuras radicais. O João Cecília, o Adalberto, o Cisquinho, o Demostenis, o Telmo, o Hélio e seu irmãozinho Choquinho, e evidentemente, eu e o Pedrinho. Esse último, o Pedrinho, era meu braço direito, um irmão para mim. 
É claro que mais alguns que vez por outra participavam de nossas incursões, mas os assíduos eram estes. Éramos todos quase da mesma idade, os mais jovens eram o Helio e o Choquinho, e aventuras junto á natureza, era conosco mesmo. Certo dia combinamos de ir acampar as margens do Ajudas, um abundante rio lá para as bandas da nascente do velho Chico (Rio São Francisco). Adquirimos todas as coisas que precisaríamos e lá fomos nós para o ponto do leiteiro. Ajeitamos a bagagem no fordão do Noraldo e ele deu partida. O vento fresco da madrugada açoitou-nos como chicotadas, mas a perspectiva do passeio compensava o frio intenso que sentíamos. Quando chegamos ao local o dia já estava clareando, e os primeiros raios de sol refletidos no orvalho que caíra a noite dava á paisagem uma beleza indescritível

Pela ordem toma a frente o meu amigo Pedro Moraes, em seguida eu e atráz levando uma caixa com apetrechos o Cisquinho(Francisco). Á direita levando um caniço, o Tequila(João Cecília).

Ao adentrarmos a mata pegamos uma trilha que nos levaria às margens do rio, e lá, achamos um bom lugar próximo a uma enorme gameleira e ali montamos o acampamento. Trabalhando em equipe, logo tudo ficou pronto. Alguns saíram para pescar, precisávamos de peixes para o almoço, só tínhamos levado uma bexiga de salame, e se quiséssemos comer melhor teríamos de conseguir algum pescado. Eu me emcarreguei de cozinhar o arroz, para isso pedi para o Cisquinho conseguir madeira seca para o fogo. O Choquinho ficaria me ajudando por ser ainda pequeno, eu também tinha receio dele se afogar nas águas do rio, por isso preferia mantê-lo à minha vista. Algumas horas se passaram e nada de ninguém chegar com peixes. O Cisquinho, com a barriga roncando de fome, resolveu ir chamá-los. Para nossa decepção, naquele almoço não comeríamos peixe, tivemos que nos contentar com arroz e o embutido que levamos. Nenhum dos pescadores conseguiu pescar sequer  lambaris. Mais tarde, já de barriga cheia, tudo se tornava uma piada e então terminávamos o dia nadando e escalando as arvores na maior algazarra. 


O Pedrinho e o João Cecília eram malucos, subiam nas grimpas (Copas) das arvores e saltavam de ponta cabeça dentro do rio. O Telmo quase morreu ao despencar das pontas de um bambuzeiro gigante, mas esperto como um macaco, conseguiu se safar. O lema do grupo era aproveitar ao máximo o que a natureza pudesse oferecer. Não tínhamos compromisso com o tempo, nossos pais tinham confiança de nos deixar sair para estes passeios porque sabiam que éramos responsáveis e cuidávamos uns dos outros. Eu, por seleção natural, tive a honra de ser o chefe do grupo, o que eu decidisse fazer, todos acatavam sem pestanejar. Sendo assim eu tinha que ser mais cuidadoso, quando acontecia um desentendimento entre eles, eu interferia e logo tudo ficava bem. O sol já estava se escondendo nas copas das arvores quando me lembrei que devíamos manter acesa uma fogueira por medida de segurança. Aquela mata habitada por onças e provavelmente poderiam atacar em busca de alimento.  À noite, o João Cecília, muito brincalhão, começou a amedrontar o Cisquinho e o Telmo que eram os escurinhos da turma. Dizia ele que onça gostava mais do sangue dos pretos. De tando ele falar, os dois já estavam começando a acreditar e se mantinham mais próximos do grupo. A noite caiu por completo trazendo a escuridão sobre o acampamento, agora só iluminado pela claridade da fogueira e de um lampião pendurado na entrada da barraca. 

Á noite, em volta de uma fogueira contava-se boas histórias.O assunto era o acontecido durante o dia, mas volta e meia la vinha o João Cecília com suas histórias. Desta feita contou que seu avô ainda em idade jovem fora pescar num riacho lá para as bandas de São Roque, e por coincidência, perto de uma grande gameleira, como aquela onde armamos o acampamento. E segundo seu avô, lá pelas tantas da noite, começou a ouvir vozes como se tivessem pessoas jogando truque. Curioso, ele se levantou, e pé ante pé se aproximou do local. No primeiro plano viu dois cavalos amarrados, e firmando as vistas vislumbrou duas horrendas figuras de chifres, eram o capeta e o diabo a se debaterem num jogo infernal. E antes que  dessem por sua presença afastou-se silenciosamente e pegou a trilha para casa. Nunca mais, conta João Cecília, seu avô fêz termo perto de  uma gameleira. A grande árvore, segundo os mais antigos é o local preferido por essas entidades do mal. Este caso deixou a turma um tanto sem assunto, e olhando uns para os outros, lembramo-nos simultaneamente que estávamos acampados debaixo de uma destas arvores. Por alguns segundos só se ouviu o crepitar da fogueira. O Demóstenis, parecendo meio assustado, tratou logo de garantir que a fogueira não se apagaria, apanhou um tronco que lhe servia de banco e o colocou para queimar. Eu comecei a lembrar das histórias de meu avô Luíz, que falavam sobre curupiras, lobisomens e caboclos dágua. Me veio á lembrança o fantasma de palha, senti um arrepio subir pela espinha, será que ele apareceria ali!?. Já beirava as onze horas e ninguém ousava ir para a barraca. De vez em quando algum animal fazia uma barulho na água e o  Cisquinho  já pensava ser uma onça. Era de fazer rir, um negrão forte daqueles com medo de uns barulhinhos vindo da água. Mas eu também estava com medo, eu dizia a eles que aquilo era peixe dos grandes e que agora é que era hora de pescar. Mas ninguém quis saber de ir para a beira do barranco, aquele local que durante o dia era tão bonito, à noite se tornava fantasmagórico. E por isto notei que todos estavam só esperando uma palavra minha, foi só abrir a boca e cada um pegou sua tralha, e em fila indiana galgamos o paredão do rio. Galgamos o morro apressadamente e fomos até um barracão de uma fazenda que servia para guardar o carro de bois. Pode até parecer mentira, mas o carro de boi coube os nove integrantes. Espremidos mas coube. Jogamos os colchonetes lá dentro e cada um tratou de pegar no sono o mais depressa possível Mas não houve como dormir; lá pela meia noite começou uma barulheira infernal nos arredores do galpão Parecia barulho de luta corporal, latas caindo, objetos sendo jogados e vários impropérios sendo ditos numa voz estranha e rouca. Ninguém ousou se levantar para olhar, começamos foi a rezar. Depois de uns trinta Pai Nossos, a bagunça parou, e já sem forças, por ficarmos quietos numa posição só, nos entregamos à um sono cheio de pesadelos. De manhãzinha, chegou um cavaleiro, provavelmente o capataz da fazenda. Chegou com o cavalo a passo e nos perguntou se tínhamos passado a noite ali. Respondemos afirmativamente e ele pareceu se surpreender, comentou com ar misterioso que naquele local morreram dois irmãos que se esfaquearam até a morte, e desde então o lugar ficara mal assombrado. Após isto acendeu calmamente um pito de palha e se afastou bem devagar. Mas o risinho sarcástico que o matuto deixou escapar me deixou um tanto confuso. Porque ele apareceu logo de manhãzinha fazendo aquela pergunta?! Comecei a achar que fora ele que tinha feito aqueles barulhos para nos assustar pois provavelmente não queria que ocupássemos aquelas dependências. Então chamei todos e perguntei o que queriam fazer, se voltávamos para o rio ou se íamos embora para nossas casas. A decisão foi pelo maior número, e então, recolhemos as tralhas e fomos para a estrada esperar o Noraldo. Mas aquele sorriso enigmático do capataz me deixou encabulado. Se foi ele o responsável por todo aquele furdunço deve estar rindo de nós até hoje. Mas!... será que foi ele mesmo?

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