sábado, 16 de março de 2013

DOMINGUINHOS: MATANDO A SEDE NO RIO BAMBUÍ

Da série “Contos verídicos”
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Esse caso se passou lá nas Paineiras, no município de Bambuí. Ali, com muita peleja meu pai cultivava café. Certo dia precisou ele de viajar à Uberlandia onde trataria de papéis para sua aposentadoria. Nessa empreitada ficaria fora por aproximadamente uma semana. Então, como não tinha com quem deixar as responsabilidades de tratar dos animais e também  terminar de carpir uma parte da lavoura, contratou os serviços de Dominguinhos, um amigo que morava na pequena cidade de Bambuí.  Meu pai confiava cegamente na índole do amigo Dominguinhos, e tranquilo viajou  na certeza de que tudo ficaria bem. Mas o amigo Dominguinhos, depois que se mudara para a cidade passou a consumir bebida alcólica em demasia e tinha costumeiramente acessos de esquecimentos, Meu pai, coitado, não sabia disso. Ao se preparar para assumir a responsabilidade que lhe era incumbida, comprou os víveres para a estadia na lavoura e junto não se esqueceu da branquinha derivada da cana, levou logo três litros da marvada. Dois dias depois já andava bêbado que nem um gambá por entre as fileiras do cafezal, e como se não bastasse foi atacado por um estado de amnésia. Neste triste estado pegou mala e cuia e saiu estrada afora abandonando a propriedade ao Deus dará. Ficou ali passando fome, cachorro, gato, porco, piriquito e até o Potrício, um pangaré que por vêzes ajudou meu pai a arrastar um arado. Andou por vários dias indo e vindo sem saber onde ia, passando uma sede de matar, até que foi encontrado por um fazendeiro da região que lhe perguntou:
Senhor, estou lhe vendo por vários dias a transitar nessa estrada, o senhor está perdido?
Vendo a situação em que estava o pobre diabo, o fêz entrar na camionete e rumou com ele para a cidade. Chegando em Bambuí, o inquiriu sobre o local em que ele queria ficar, estavam próximos a linha do trem.
Aqui mesmo está bom!…Respondeu Dominguinhos, mas ainda com ares de que ainda não estava bem.
DominguinhosO fazendeiro tocou sua camionete e pelo retrovisor viu que o pobre homem nem sabia por onde ir. Mas Dominguinhos, com uma sede de lascar lembrou-se da vontade de beber água que passara nos dias em que andara á esmo pelos matagais das Paineiras.  E em vêz de entrar em algum bar e pedir água, rumou á passos largos até o rio Bambuí, que ficava á uns seis ou oito quilômetros dali. Ao chegar ás margens, prancheou  e sugou por vários segundos o precioso líquido que corria caudalosamente em direção ao mar. Dominguinhos matou a sede que lhe corroía,e de volta á cidade foi encontrado por sua filha que o viu sentado no banco da praça sem saber por onde ir. 
Uai pai, é o senhor?!
Levando-o para casa, o fêz tomar um bom banho e deu-lhe um bom prato de sopa de galinha, e dias depois, já refeito relatou que quando saiu andando á esmo via á sua frente figuras horrendas que pareciam lhe ameaçar, era o delírio da cachaça. Meu pai, ao retornar, encontrou tudo abandonado, mas os animais apesar de terem passado fome ainda estavam vivos. Mesmo assim, dias depois o procurou para lhe fazer o pagamento pelo trabalho, e hoje, conta achando graça das perípécias do amigo Dominguinhos. É, a branquinha é boa, mas é brava!
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