sábado, 2 de fevereiro de 2013

O AEROMODELISTA


__Samuel era um jovem como tantos outros por aí, ainda em juventude plena tinha namorada e curtia todos os agitos da cidade. De boa aparência se vestia razoavelmente bem dentro de suas possibilidades.

De diferente de seus amigos tinha apenas o dom de consertar aeromodelos, o que fazia muito bem, pois a sua oficina, que também lhe servia de moradia vivia atulhada de serviços. Ele era o único em Uberlândia que prestava esse tipo de serviço, e ultimamente o hobby vinha crescendo bastante na cidade. Eu o conheci através de meu filho, que precisou de seus serviços para consertar um helicóptero que adquirira recentemente.

Como ainda aprendia a arte de pilotar o aeromodelo num desses vôos o deixou cair vindo a quebrar o artefato. O jovem era sem dúvidas prestativo, no dia seguinte, quando não lhe faltasse peças ele entregava o serviço. Conversei com ele umas quatro ou cinco vezes, mas fora o bastante para perceber que era pessoa de boa índole, e notei também que era um menino de grande sensibilidade, adjetivo de pessoa honesta e inteligente. Mas numa das últimas visitas que lhe fiz acompanhando meu filho para ir buscar o aeromodelo, notei nele uma certa mudança, no lugar dos jeans que usava o vi vestido com calças e jalecos brancos. Assim foi nas próximas visitas por aproximadamente uns quinze dias. Já se comentava em rodas de colegas a estranha mudança de hábito de Samuel, alguns mais chegados mostraram-se preocupados. Assim, gradativamente as mudanças foram aparecendo, até que alguem mais chegado lhe inquiriu o porque daquilo; ele, sem demonstrar ou trair-se em palavras, se desfês tranquilamente das perguntas, dizendo apenas que mudaria um pouco a rotina de vida. Salientou que  queria viver em paz com Deus e para isso deveria estar preparado e se vestir de branco, pois o branco era a cor da paz, a cor do amor. As mudanças foram tantas que o jovem chegou até a terminar o relacionamento com sua namorada, manteve-se fiel apenas aos compromissos que tinha com seus clientes, o de consertar os aviõezinhos. Mas o comportamento de Samuel não se resumiria apenas a isso, na próxima visita que lhe fizemos uma semana depois para buscar o helicóptero de meu filho tivemos uma terrível surpresa. Quando ali chegamos por volta de dez horas da manhã encontramos a oficina fechada e às portas um de seus melhores amigos se preocupava de ver o estabelecimento fechado até aquela hora, quando era comum abrir bem cedo. Samuel morava sozinho naquela oficina,  não tinha parentes em Uberlandia, seus pais residiam em Uberaba, por isso, as únicas pessoas que tinha aqui eram os amigos e os clientes. Alguns minutos depois, após várias cogitações, tomou seu mais chegado amigo a atitude de chamar a policia, pois desconhecia qualquer outro motivo para que o amigo não tivesse abertos as portas da oficina. O proprietário do imóvel foi acionado para abrir as portas, pois sendo locatário tinha as chaves de reserva, e ao fazê-lo foi terrível com o que deparamos. Numa cena dantesca, o jovem Samuel jazia pendurado por uma corda em volta do pescoço. E a julgar pelo calor ainda reinante em seu corpo tinha se enforcado ainda a pouco, julgou alguns que ali estavam que talvêz tivesse escutado toda a preocupação de seu amigo e clientes do lado de fora. A cadeira que usara para subir estava caída em cima da cama, os seus pés estavam a poucos centímetros do colchão, o que define que ao começar a se enforcar se ele quisesse poderia voltar atraz. Mas ele não voltou, naquela manhã, algo em sua mente certamente dissera-lhe que deveria partir. Por estar ainda com o corpo quente, concluiu-se que poderia ainda ser salvo com massagens no coração, então decidiu-se que deveríamos tirá-lo dali o mais rápido possível. Dispus-me a ajudar os policiais, e enquanto eu e o outro o erguíamos para cima, o outro retirou o laço de seu pescoço. Ao fazer isso seu corpo curvou-se pesadamente em meus ombros, pude sentir o calor de vida que ainda lhe restava. Enquanto isso chegou os bombeiros que lhe aplicaram os procedimentos de socorro, mas já era tarde, o jovem Samuel não estava mais conosco. Em cima de um balcão estavam vários aeromodelos consertados, e junto o nome de cada cliente, mas estavam sem o respectivo valor do serviço prestado, certamente concluíra o jovem Samuel que para onde iria não precisaria da vil moeda. Hoje procuro respostas para esse caso, o que faz um menino em plena mocidade a agir dessa forma? O amor, talvêz! A solidão, será? Duvido, ele tinha muitos amigos...só sei que perdemos uma ótima pessoa, e Uberlândia, um exímio técnico na apaixonante arte do aeromodelismo.

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