terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

MANÉ SANTANA, UM OLEIRO DE MÃO CHEIA



Nos anos 70 eu era um rapazola ávido por conhecimento.Tanto um gibi dos heróis da época ou um velho jornal que eu encontrava pelos cantos  servia para preencher o meu tempo. Eu já atravessara aquele período insensato de caçar passarinhos com estilingue feitos com goma de câmara de ar de bicicleta. Dava agora continuidade ao aprendizado de desenho que começara la na infância. Sem papel e lápis, um graveto e a terra assoreada da lavoura da Gurita serviram-me como prancheta.

Mas hoje não quero falar de mim, e sim, de Mané Santana, um oleiro de mão cheia que existiu na pequena cidade de Bambuí, no estado de Minas Gerais. Trabalhava o homem a semana inteira em sua olaria mexendo o barro que cavava de um barranco, e com esse barro fabricava os melhores tijolos da cidade. Inúmeras residencias e prédios foram erguidos com os tijolos de Mané Santana. Sendo o segundo filho de um grupo de oito irmãos, o homem por algum motivo que desconheço não se casou, e portanto, não tinha herdeiros diretos. Era um homem de estatura normal e já nos seus quarenta e cinco anos, que é a idade em que me lembro dele, ainda conservava um vigor incrível.

Simples e modesto tinha apenas um defeito, se posso chamar de defeito beber aos finais de semana. Mas isso não o tornava mau ou mesmo desprezível, ao contrario, ele se tornava alegre e brincalhão gastando todo o seus ganhos com amigos e principalmente com a meninada do bairro, dando-lhes doces e balas. Ele adorava jogar as guloseimas para o alto só prá ver a molecada correr para pegar. Nunca soube de uma desavença dele, mesmo bêbado nunca desacatou ou magoou alguém, isso posso garantir pois cresci ali e acompanhei grande parte de sua vida. Mas numa manhã tivemos uma terrível noticia, encontraram o simpático oleiro morto de uma maneira que nem mesmo um cão de rua merecia. Estava de ponta cabeça dentro de uma fossa no interior de um bar situado na pracinha do Lava-pés. Como ele foi cair ali dentro ninguém sabe, pois o buraco era demasiado pequeno para um homem daquela estatura. Correu aos cochixos na época que alguém o tinha assassinado. Certamente quem o jogou ali aproveitou-se de sua bebedeira, arrancou o forro de madeira e o jogou lá dentro.  A policia foi chamada para acompanhar a retirada do corpo de Mané Santana daquela triste situação, e em seu sepultamento houve muitos que choraram sua partida, dentre eles, a molecada do bairro lamentou o acontecido.

A justiça da época foi falha, qualquer pessoa com um mínimo de senso de detetive solucionaria facilmente o caso, mas por ser o pobre homem simplesmente um oleiro bêbado ninguém fez conta para desmascarar o assassino que o enfiou de ponta cabeça naquela privada. Nem mesmo sua família se dispôs, se por simplicidade ou mesmo conivência. Eu particularmente lamentei demasiadamente o fato, e esperei que a justiça encontrasse o culpado. Mas essa não veio e o caso foi esquecido. Desde então se passaram quarenta e dois anos e acredite se quiser, acho que sou o único daqueles moleques que tem na memória a simpática figura do oleiro Mané Santana.

sábado, 2 de fevereiro de 2013

O AEROMODELISTA


__Samuel era um jovem como tantos outros por aí, ainda em juventude plena tinha namorada e curtia todos os agitos da cidade. De boa aparência se vestia razoavelmente bem dentro de suas possibilidades.

De diferente de seus amigos tinha apenas o dom de consertar aeromodelos, o que fazia muito bem, pois a sua oficina, que também lhe servia de moradia vivia atulhada de serviços. Ele era o único em Uberlândia que prestava esse tipo de serviço, e ultimamente o hobby vinha crescendo bastante na cidade. Eu o conheci através de meu filho, que precisou de seus serviços para consertar um helicóptero que adquirira recentemente.

Como ainda aprendia a arte de pilotar o aeromodelo num desses vôos o deixou cair vindo a quebrar o artefato. O jovem era sem dúvidas prestativo, no dia seguinte, quando não lhe faltasse peças ele entregava o serviço. Conversei com ele umas quatro ou cinco vezes, mas fora o bastante para perceber que era pessoa de boa índole, e notei também que era um menino de grande sensibilidade, adjetivo de pessoa honesta e inteligente. Mas numa das últimas visitas que lhe fiz acompanhando meu filho para ir buscar o aeromodelo, notei nele uma certa mudança, no lugar dos jeans que usava o vi vestido com calças e jalecos brancos. Assim foi nas próximas visitas por aproximadamente uns quinze dias. Já se comentava em rodas de colegas a estranha mudança de hábito de Samuel, alguns mais chegados mostraram-se preocupados. Assim, gradativamente as mudanças foram aparecendo, até que alguem mais chegado lhe inquiriu o porque daquilo; ele, sem demonstrar ou trair-se em palavras, se desfês tranquilamente das perguntas, dizendo apenas que mudaria um pouco a rotina de vida. Salientou que  queria viver em paz com Deus e para isso deveria estar preparado e se vestir de branco, pois o branco era a cor da paz, a cor do amor. As mudanças foram tantas que o jovem chegou até a terminar o relacionamento com sua namorada, manteve-se fiel apenas aos compromissos que tinha com seus clientes, o de consertar os aviõezinhos. Mas o comportamento de Samuel não se resumiria apenas a isso, na próxima visita que lhe fizemos uma semana depois para buscar o helicóptero de meu filho tivemos uma terrível surpresa. Quando ali chegamos por volta de dez horas da manhã encontramos a oficina fechada e às portas um de seus melhores amigos se preocupava de ver o estabelecimento fechado até aquela hora, quando era comum abrir bem cedo. Samuel morava sozinho naquela oficina,  não tinha parentes em Uberlandia, seus pais residiam em Uberaba, por isso, as únicas pessoas que tinha aqui eram os amigos e os clientes. Alguns minutos depois, após várias cogitações, tomou seu mais chegado amigo a atitude de chamar a policia, pois desconhecia qualquer outro motivo para que o amigo não tivesse abertos as portas da oficina. O proprietário do imóvel foi acionado para abrir as portas, pois sendo locatário tinha as chaves de reserva, e ao fazê-lo foi terrível com o que deparamos. Numa cena dantesca, o jovem Samuel jazia pendurado por uma corda em volta do pescoço. E a julgar pelo calor ainda reinante em seu corpo tinha se enforcado ainda a pouco, julgou alguns que ali estavam que talvêz tivesse escutado toda a preocupação de seu amigo e clientes do lado de fora. A cadeira que usara para subir estava caída em cima da cama, os seus pés estavam a poucos centímetros do colchão, o que define que ao começar a se enforcar se ele quisesse poderia voltar atraz. Mas ele não voltou, naquela manhã, algo em sua mente certamente dissera-lhe que deveria partir. Por estar ainda com o corpo quente, concluiu-se que poderia ainda ser salvo com massagens no coração, então decidiu-se que deveríamos tirá-lo dali o mais rápido possível. Dispus-me a ajudar os policiais, e enquanto eu e o outro o erguíamos para cima, o outro retirou o laço de seu pescoço. Ao fazer isso seu corpo curvou-se pesadamente em meus ombros, pude sentir o calor de vida que ainda lhe restava. Enquanto isso chegou os bombeiros que lhe aplicaram os procedimentos de socorro, mas já era tarde, o jovem Samuel não estava mais conosco. Em cima de um balcão estavam vários aeromodelos consertados, e junto o nome de cada cliente, mas estavam sem o respectivo valor do serviço prestado, certamente concluíra o jovem Samuel que para onde iria não precisaria da vil moeda. Hoje procuro respostas para esse caso, o que faz um menino em plena mocidade a agir dessa forma? O amor, talvêz! A solidão, será? Duvido, ele tinha muitos amigos...só sei que perdemos uma ótima pessoa, e Uberlândia, um exímio técnico na apaixonante arte do aeromodelismo.

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