domingo, 30 de setembro de 2012

O MISTERIOSO CANTO DOS BEM-TE-VIS



Pontualmente às 05:45 hs de toda manhã éramos despertados pelo canto dos bem-te-vis. O seu canto alegre e espalhafatoso era como um despertador que dizia á minha esposa que era hora de levantar e caminhar até a casa de sua mãe para ministrar-lhe todos os medicamentos que passou a tomar nos últimos meses. Manuela Maria de Almeida Rodrigues tinha sido até um ou dois anos atráz uma mulher alegre e jovial, que adorava passear com suas amigas e até  frequentar bailes da terceira idade. Mas nos últimos meses adoecera sensivelmente, tendo que recolher-se aos seus aposentos e mal demonstrava ela desejos de saír siquer a porta. Passou a sofrer esquecimentos e repetia o mesmo assunto várias vêzes.   Assistida em tempo por vários médicos estes lhe recomendaram uma bateria de exames que constataram o terrível mal de Alzheimer, além de outros incômodos já decorrentes da idade. Então já não lhe era possível cuidar dos afazeres da casa, cabendo então à minha esposa como a filha que morava mais próximo a incumbência de dar-lhe os medicamentos.


Assim decorreu-se quase um ano e cheia de boa vontade e paciência, juntamente com as outras irmãs minha esposa cuidou de sua mãe. Lembrava-me tanta boa vontade de quando passei pelo desgosto de perder a minha querida mãe, pois também a Cleo cuidara dela na ocasião com o maior zêlo e desprendimento, tanto que morrera em seus braços. D. Manuela teve em seus últimos dias melhoras e pioras, quando tinha que ser levada as pressas ao pronto socorro, e infelizmente numa destas vêzes ficou internada passando bem mal. Era o início de tristes e difíceis momentos para os filhos.Teve várias visitas, inclusive dos netos Ruan e Evellyn de quem tanto gostava.  Naquela noite quando retornei do meu trabalho, não era horário de visitas nas dependências do UAI, mas furtivamente adentrei ao quarto e constatei assombrado que seria um milagre se passasse daquela noite. Infelizmente não passou, D. Manuela faleceu naquela madrugada  na compania de sua filha Cleía que lhe velava o sono. Nas manhãs seguintes incrivelmente não se ouviu o canto dos bem-te-vis. Lógicamente o dia e a noite que estavam por vir foram de total amargura e tristeza para todos, e quando do sepultamento, exatamente quando cobriam o caixão, lá estavam vários bem-te-vis, e desta feita o seu canto nos pareceu um tanto melancólico.

Joel Di Oliveira
Coincidência ou não, a presença dos pássaros em cima da sepultura e junto aos pés das pessoas não era um fato comum, principalmente com aquela espécie que geralmente é arisca á proximidade dos humanos. Foi realmente algo anormal ao entendimento dos presentes, e de alguma forma considerado um fenômeno parecido com o que aconteceu quando do falecimento de minha mãe quando um beija-flor adentrou a casa sobrevoando todos os cômodos e em seguida eletrocutando-se na boquilha da lâmpada fixada no teto, no exato momento em que alguém  ligava dando a notícia de sua morte São acontecimentos que deixam a pensar, coincidência ou não, algo fora do comum acontece nestes momentos. Certamente teremos muito a aprender até desvendarmos os mistérios dessa dimensão em que vivemos.


Eu, particularmente e em nome de todos que a amavam deixo através desta postagem a homenagem a D.Manuela, que de certo modo passou a ser para mim uma segunda mãe. Como todos, teve seus defeitos, mas quão poucos são em contrapeso com as qualidades que tinha. No coração de todos os filhos ficará um vazio que jamais será preenchido, resta-nos agarrar aos bons momentos e as boas lembranças que tivemos com essa mãe, sogra, avó e bizavó. Que Deus a tenha em sua imensurável luz.