segunda-feira, 27 de agosto de 2012

OLÍMPIA MARIA DE JESÚS, VIDA E MORTE!



Bananas defumadas-ilustração Joel Di Oliveira
Este é um breve resumo da história de Olimpia Maria de Jesús. uma grande mulher que ocupará sempre um cantinho em minha memória. Descendente direta de português com nativa índígena da região, morou no município de Bambui até meados de 1971 quando sofreu a perda de seu amado esposo. Em tempos de juventude vivera intensamente a paixão que nutrira por seu marido. Apesar do casal viver tempos difíceis nunca esmorecera, e sempre teve em sua mesa o alimento para os filhos. 

Eu, como um dos vários netos, tive a chance de viver um pouquinho desses dias e nunca me esquecerei do arroz socado em pilão que cozido em panela de ferro ficava com um sabor inigualável e certa coloração azul.
A casa onde sempre morou, foto tirada em 1968.
O feijão bem vermelho afogado em gordura de porco casava perfeitamente com suculentos pedaços de carne ou mesmo de  simples torresmos. Bananas marmelo penduradas acima do fogão de lenha defumavam-se adquirindo um doce fantástico.

Sinceramente, eu adorava o tempero dessa bondosa senhora. Após a morte de meu avô, contra a sua vontade passou a morar com os filhos, ora na casa de um, ora na casa de outro. Forçada pela situação abandonara para sempre a casinha onde morou desde os dezesseis anos quando se casou. Tinha filhos em Bambui, Uberaba e agora passaria alguns dias em Uberlandia na casa de seu filho Sebastião, e eu, que tinha viajado a Bambuí naqueles dias, ficara encarregado de trazê-la. Lembro-me muito bem dessa viagem, na época eu tinha uma perua Kombi e cuidadosamente a acomodamos no banco trazeiro. Durante a viagem eu podia ver pelo retrovisor a tristeza que ela sentia em deixar aquele lugar. Era compreensível, estava enterrado ali o seu amado, teria talvêz pensasse que ali deveria sempre ficar, para quando chegasse sua hora fosse também sepultada ao lado do companheiro.

Não me esqueço de uma citação dela. Ao passarmos pela sinalização do lado contrario da pista, ela com as vistas já enfraquecidas sómente enchergava as cruzetas das placas, então comentou:

__Nossa, quantas cruzes! 
__Muitos morreram nessa estrada não é?!
__Cuidado Elinho, vá mais devagar!




Carinhosamente ela sempre me chamava de "Elinho', e eu adorava isso.
Mas aquela estadia na casa de seu filho Sebastião seria para tristeza de todos nós, seus últimos tempos de vida. Devido a idade já avançada adoecera, e num dia de intenso frio do mês de agosto ela piorou sensivelmente e em seus pesadelos contou que ouvia os gritos de seu marido chamando-a. Naquele nefasto dia, o filho Sebastião ainda não tinha chegado do trabalho e reclamando ela disse que se ele estivesse ali ele certamente arrumaria um remedinho para ela. Foram as últimas palavras desta bondosa senhora, recolheu-se resignada e morreu nos braços de Helena.


Não foi sepultada ao lado do marido como desejava, mas certamente o encontrou no verdadeiro e eterno lado da vida. O filho Sebastião ainda hoje culpa-se por não estar presente quando ela precisou,  e vários anos depois quando relembra, enche-lhe ainda os olhos de lágrimas e embarga-lhe a voz. 



terça-feira, 14 de agosto de 2012

A FUGA DO SOLDADO MACÁIA - SÉRIE CONTOS VERÍDICOS




__No ano de 1976 convidou-me o tio Ziquita para um pagode em sua nova casa na roça. Tinha ele montado uma venda e saía-se muito bem na localidade chamada "Mata do pau ferro". Para a realização segura do evento ele veio à Bambui e tirou licença na delegacia de polícia. Assim documentado teve direito a presença policial para inibir prováveis desavenças entre os matutos da regiãoEncarregou-me então de levar o segurança em meu fusca, me senti engrandecido por poder transportar a autoridade. Não me custaria nada eu já ia mesmo com a minha namorada. Então, estando tudo acertado, ficou combinado que no sábado logo depois do almoço eu transportaria os policiais até a localidade. Mas a plurabilidade não foi necessária à frase, pois só tinha um policial me aguardando, e era um velho soldado conhecido na cidade como Macaia. O agente que me desculpe, ele e sua parentada, mas o sujeito não me parecia ser capáz de lidar com pessoas em eventos como esse a que se propunha meu tio, principalmente as daquela comunidade. Ali matavam um hoje e já deixavam outro amarrado para estriparem no dia seguinte. Mas esse não era um problema de minha alçada, chegamos lá cedo, o sol ainda tava alto e percebi que todos se desdobravam nos preparativos. E já começava a chegar gente de todo lado, vinham a cavalo, a pé e alguns fazendeiros da região trazíam suas famílias e peões em camionetes. A tia Terezinha, auxiliada por algumas comadres do lugarejo, também pulavam miudinho para dar conta dos bules de café, chá e outros acompanhantes que seriam consumidos no decorrer da pagodeira. Eu me sentia em casa, tanto o tio como a tia Terezinha sempre foram de um carinho só comigo. A noite veio e logo os lampiões foram acesos em pontos estratégicos da tolda, que era bem espaçosa permitindo o abrigo do povaréu. O soldado Macáia mostrava-se garboso, vestira seu melhor uniforme e mantinha-se sério no posto de onde podia controlar todo o movimento no estabelecimento. A noite viera trazendo um friozinho gostoso e de vez em quando nosso representante da lei sentindo-se dono da situação ia ao balcão e pedia um gole de cachaça. Segundo ele para se proteger da friagem, meu tio o servia sem discutir achando que o agente da lei sabia o que estava fazendo. Lá pelas nove horas a sanfona chorou apaixonada fazendo todos balançarem o esqueleto.



No balcão da venda o tio Ziquita passava apertado para atender tanta solicitação. A pinga de barril rolou solta e foi essa danada que faria o bicho pegar. Alguns indivíduos sem beber já eram fanfarrões, e com ela na cabeça bastava um "não" de alguma das damas que a bagunça estava feita. E foi numa rusga destas que o soldado Macáia achou que devia mostrar serviço, sacou do trinta e oito e disparou para cima chamando a atenção dos foliões. E para seu azar neste dado momento, alguém que já estava de rixa com outro brigão aproveitou que todos estavam procurando ver de onde viera o estampido e desferiu uma punhalada nas costas do caçador de encrencas. Este tombou como um porco no chão esvaindo-se em sangue. Foi um instante de incertezas, então alguém na multidão achou que fora o soldado que atirou no indivíduo, e durante alguns segundos a multidão fez silencio, para logo depois, baseados nas próprias conclusões partirem para cima do pobre soldado. Alguém gritou bem alto: Lincha! Lincha!! O soldado, achando que ainda era dono da situação tentou conter a turba de arma em punho, mas quando viu que era impossível correu como um louco em direção ao meu fusca, onde minha namorada me esperava. Nesse momento eu estava na cozinha tomando um cafezinho e não percebi o que estava acontecendo. Depois que retornei relatou-me assustada que o soldado Macáia chegou correndo muito furioso mandando-a abrir a porta para ele entrar, pois a turma queria linchá-lo. Mas ela, vendo aquelas pessoas com paus e pedras nas mãos sentiu medo e se recusou à deixá-lo entrar. Restou ao pobre agente, sumir na escuridão embrenhando-se no mato. Com a fuga do soldado Macáia o ambiente se acalmou. O ferido foi levado ás pressas para o hospital da cidade.  Segundo quem o levou corria risco de perder a vida.  A madrugada veio e a poeira levantou novamente provocada pela dança dos forrozeiros. Agora, com o ânimos mais calmos o povão pode aproveitar melhor a festança, assim foi o resto da madrugada. O dia amanheceu e aqueles que não encheram a cara de cachaça tomaram seus rumos e foram embora para suas casas. Mas na porta da venda e debaixo da tolda construída com folhas de coqueiro ainda tinha muita gente. Eu estava no carro com a minha namorada, Inclinara o banco e tentava repor o sono mas como conseguir dormir com os gritos dos bêbados que ainda achavam que o pagode continuava. Lá pelas nove horas resolvi ir embora para casa, nos despedimos dos tios e pegamos a estrada. Retornaria sem o meu carona e si quer sabia por onde andava. Concluímos que havia voltado para a cidade. Mas estávamos redondamente enganados, de repente, numa curva da poeirenta estrada, irrompe do matagal o velho soldado Macáia.Tinha o uniforme dilacerado e se encontrava todo sujo de terra.


Pela aparência andara pela mata a noite toda, tentando achar a estrada. Certamente durante a fuga repentina que empreendera para fugir da turba que queria linchá-lo tomara rumo contrário ao que levava à estrada. E como estava muito escuro, cada vez mais embrenhara-se no mato. Estava fulo, esbravejava feito um louco, faltou apenas me xingar de santo e rapadura culpando-me de sua desgraça. Em nome da lei e da ordem, ele requisitou novamente o meu fusca para transportá-lo imediatamente até Bambui. Pensei que aquela ordem fosse apenas para trazê-lo até a cidade, mas não era. Meia hora depois, já na delegacia de polícia, ele reuniu o destacamento e tivemos que retornar ao local do pagode. E quando ali chegamos, se dispuseram com os fuzis apontados para os gatos pingados que ali ainda estavam. 

Mas os desordeiros já tinham ido embora. Informado o capitão do destacamento de como acontecera a confusão, este mandou-me com mais três praças na casa de cada um dos envolvidos para a lavração da ocorrência. E depois das investigações chegou-se a conclusão de que, ou levava preso todos eles ou deixava como estava. Resolveu-se pela segunda opção, passaria o caso para outro departamento. Assim, não sendo mais necessário o aparato policial, o capitão mandou que voltássemos à cidade. Tempos depois me lembrei do soldado Macaia, de quando o achamos na estrada bravo como um cascavel, lambuzado de terra e com a farda em tiras. Não é um caso para rir, mas que estava engraçado isso estava. O tempo passou e o caso do esfaqueador caiu em esquecimento. Sem provas concretas que apontassem o sujeito ninguém foi preso e tudo voltou ao normal na comunidade. A vítima se recuperou e nunca mais quiz saber de bulir com mulher de ninguém. Esse acontecimento ficou marcado em minha memória, certamente porque eu vivia na época os melhores anos de minha vida.

Trecho do livro "O Vale Encantado e o menino de suspensórios" de autoria de Joel Di Oliveira.