segunda-feira, 25 de junho de 2012

JOÃO MULATINHA E O CASARÃO BEM-ASSOMBRADO




O jovem Sebastião não tinha idéia dos apuros que iria passar quando aceitou a sociedade com o amigo João Mulatinha!


Este fenômeno foi vivenciado pelo senhor Sebastião de Oliveira no ano de 1954 quando ainda era moço casadouro nas Vargens de Bambuí. Preparava-se o varão para unir-se em matrimônio com a linda filha de Messias Tomé e por isso desdobrava-se nas empreitadas. Era plantador de suas próprias rocinhas, mas quando seu serviço lhe dava trégua punha-se a trabalho noutras bandas para angariar mais fundos pro casório. Estava ansioso pelo evento, dado que se apaixonara perdidamente pela cabrocha, e com razão, naquelas redondezas não tinha moçoila mais bonita. Desta feita tomara de empreita uma roçada lá na Mata do São Leão e tinha por parceiro o destemido João Mulatinha, enquanto durasse o serviço o jovem Sebastião ficaria hospedado em sua casa. Mas o nosso jovem não esperava que tal casa fosse um casarão abandonado e nem que o parceiro residisse sozinho na enorme construção. Estranhando tal maneira de ser do amigo e não querendo lhe inquirir o porque de morar sozinho naquelas bandas deixou de lado os pensamentos e trabalhou o dia todo ao lado do amigo que se mostrava alegre e engraçado com as piadas que contava. João Mulatinha era um bom moço, viera de outras paragens a procura de trabalho e por isso não tinha com quem morar e o casarão abandonado lhe viera a calhar.
Conhecera o jovem Sebastião num pagode lá nas terras do Rincão, onde namoraram duas irmãs e por isso se conheceram e se tornaram grandes amigos a ponto de tomarem grandes empreitadas em sociedade. O dia fora proveitoso, deram um grande adianto no serviço, mas já o sol entrando logo as sombras da noite cobriríam por completo a região, ainda bem que tinha o amigo como companheiro de quarto pensou o jovem Sebastião. Mas não aconteceu bem assim, depois de se banharem e de se fartarem com um bom naco de toucinho com feijão tropeiro se prepararam para dormir. João Mulatinha apanhou a perrengue lamparina à querozene e levou o jovem Sebastião até um quarto que ficava no outro lado do casarão, e ali para surpresa de nosso herói somente tinha um catre, isso significava que não teria a presença do amigo. Preocupado mas sem coragem de confessar que tinha medo de dormir sozinho desejou boa noite ao parceiro e deitou-se receioso. Escutou os passos do amigo no assoalho de tábua se afastando pelo longo corredor e percebeu quando João Mulatinha apagou a lamparina. Agora o casarão estava mergulhado numa escuridão total, e entre o piar de uma coruja e o canto longínquo de um curiango o jovem Sebastião pôde ouvir o constante zunido do silencio daquela noite.

Estava tão sozinho naquele quarto que nem o ronco de seu amigo escutava, e agora já suava freneticamente. Tentou pegar no sono mas estranhamente começou a sentir que algo ou alguém lhe puxava as cobertas bem devagarinho, ao que respondia com um raspar de garganta e aproveitava para se recobrir. Mas logo tudo começava novamente, sentia claramente as cobertas deslizarem por seu corpo até deixarem seu torso descoberto. Apavorado e com medo de abrir os olhos o jovem Sebastião viveu terríveis momentos até que não aguentando mais gritou por seu companheiro.

__Joãâão!!! Ô Joãozinho, corre aqui depressa!!!
__Tem um trem puxando minha coberta!...
Logo o companheiro chegou trazendo a lamparina que teimava em se apagar. Olharam debaixo da cama mas nada viram, e então para tranquilizar o amigo João Mulatinha trouxe seu velho colchão de palha e o estendeu no chão deitando-se no mesmo quarto para contento do colega. Mas de nada adiantaria, logo começaram a ouvir passos andando pelo corredor, mexendo nas coisas fazendo um barulho infernal. João Mulatinha viu que seu amigo tinha razão, e repentinamente tomou de uma pinhola que ficava pendurada no corredor e sentou o reio na direção dos barulhos gritando:
__Ah! Seu maldito, espera que vou te dá uma surra!
__Deixa _a gente dormi!!!
E dizendo isso estalou o chicote no ar. O jovem Sebastião ouviu os passos apressados daquela estranha manifestação se afastando pelo corredor afora. Depois desta explosão de João Mulatinha a noite transcorreu tranquila, bem como todas as demais. Puderam os dois amigos terminarem a empreitada e receberem o pagamento por seu trabalho nas terras do casarão mal assombrado. Mas as lembranças daquela fatídica noite, o jovem Sebastião jamais esqueceria.
João Mulatinha foi destemido, não tinha medo de nada e nem de fantasmas ou que quer que seja.  Parrudo e de pequena estatura era marrento que nem um cabrito montêz, mas sabia ser amigo. 


Confessa-me hoje o jovem Sebastião, agora com oitenta e dois anos de idade que João Mulatinha fôra para ele um dos melhores companheiros que tivera na juventude.

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