sábado, 6 de agosto de 2011

UM CONVITE ESPECIAL





Esta é uma historia de amor, muito carinho e extrema demonstração de afeto. Para quem escreve sobre  enígmas essa historia foge um pouco as regras, mas em pano de fundo perceberá que tem um pouco de tudo. Há alguns anos atráz, em viagem à cidade de Bambuí não esqueci minha querida avó Iraci, e nunca poderia. Em visita para lhe apresentar o meu terceiro filho, ela me fez um convite irrecusável. Convidou-me alegremente para almoçar com ela, pois sabia que desde meninote eu apreciava o seu delicioso tempero. Eu já esperava tal convite, pois minha mãe relatara-me que nos últimos meses ela repetia insistentemente que queria servir–me um almoço em sua casa. Senti-me lisonjeado em ser alvo de tanta atenção.  Como minha outra avó do lado de meu pai, ela era a avó que todo neto desejava ter. Sua voz de um tom suave deixava transparecer enorme serenidade. Observadora, nada lhe passava despercebido, principalmente os sentimentos das pessoas com quem falava. Aproveitou ela, na oportunidade e me presenteou com sua estimada máquina de costura.  A relíquia, ainda funcionando perfeitamente tinha imenso valor para ela. E diante de todos que estavam assentados a mesa, disse pausadamente que quando não mais precisasse dela, eu deveria levá-la comigo. Argumentou que em minhas visitas anteriores notara meu  grande interesse pelo artefato. Realmente eu me interessara pela máquina, sempre fui louco por antiguidades, e ainda mais aquela sendo de família. Sentindo-me feliz, mas um tanto desconcertado, pois o presente parecera-me mais uma despedida, procurei logo mudar o assunto, apanhei a  câmara  e  a  fotografei  juntamente  com  meus filhos. 
Naquele dia me despedi dela com uma estranha sensação, e ao fazê-lo, abracei-a longamente como se fosse a última vez. O almoço estava uma delícia, o arroz bem solto com o feijão vermelho bem temperado vinha acompanhado de um frango caipira cozido em fogão de lenha, o que lhe conferira esplendido sabor. E com a vantagem de ter sido feito especialmente para mim. Restaurantes chiques, com finos cardápios não superariam aquela fantástica refeição, aquele dia eu nunca mais esqueceria.
Semanalmente eu falava por telefone com minha mãe para saber das coisas e aproveitava para ter notícias de minha apreciada avó. Era como um cerimonial, quando me mudei para Uberlandia, práticamente deixei todos os meus parentes na pequena cidade de Bambuí, e ligar para saber como estavam todos era uma obrigação que eu fazia questão de ter. Mas um certo dia, pouco depois das dezenove horas o telefone tocou, era a tia Santa avisando que ela havia falecido. Eu soubera de antemão que ela se encontrava adoentada nos últimos tempos, mas não pensava ser tão sério. Pedi licença na empresa e viajei naquele mesmo dia, e lá encontrei minha querida avó dentro de um caixão. Lembrei-me de nosso último encontro, quando todos estávamos reunidos à mesa e ela citara que sua máquina de costura seria minha quando dela não mais precisasse. Estranhamente me senti mal,  que mulher explêndida era aquela que deixava para o neto, e não para os filhos, um dos seus bens que lhe acompanhara a vida toda?! Pois sim, era realmente um dos seus maiores bens, naquela preciosidade costurara as calças do meu avô Messias e de toda família durante toda a sua vida. E agora aquela bondosa senhora que eu amava tanto jazia sem vida, num canto eu chorei baixinho, não era uma avó que eu estava perdendo e sim, uma mãe. Ninguém percebeu, mas naquele dia que ela me convidou para o almoço, na verdade, queria era se despedir. Por eu estar morando em uma cidade que ela considerava ser longe, achou que não teria chances de me encontrar novamente.


Assim por estar adoentada concluiu que estava no fim. Com toda mestria assentara-se a mesa com todos nós e cumpriu sua vontade. A boa e simpática senhora sobrepujou com serenidade sua própria morte. E hoje, depois de tanto tempo observo com carinho a antiga máquina de costura, é realmente uma relíquia, e deslizando minhas mãos sobre ela sinto que o seu frio metal está impregnado de história. Uma história bonita como a de muitas vovós por aí, com sofrimentos, alegrias e muito amor. Mas essa, essa é a história de minha saudosa avó Iracy, e aquele longo abraço que lhe dei no dia em que almocei com ela, infelizmente fôra o último.