segunda-feira, 1 de agosto de 2011

O PREÇO DO SABER

UMA PAMONHA POR UMA TABUADA
Sim, é isso mesmo. Em 1944 o menino Sebastião filho de família pobre do interior de Minas Gerais trocou uma pamonha (Bolo de milho) por uma tabuada. Naquela época eram raras as escolas por aquelas bandas, a única que tinha funcionava precariamente no galpão do curral de uma fazenda. Nem assentos suficientes tinha para os alunos, e mesmo assim tinha boa freqüência. Os alunos quando não estavam ajudando o pai nas roças podiam freqüentar as aulas que eram ministradas pela esposa do fazendeiro, que se dispunha sem ganhar nenhum ônus a ensinar o seu aprendizado aos alunos. Essas escolas eram freqüentadas tanto por alunos de família pobre quanto de ricas, e nessa peleja, os alunos pobres sofriam as desvantagens perante os outros por não terem material escolar suficiente. Sebastião era um desses meninos e muitas das vezes faltava as aulas e se escondia num bambuzeiro até dar o horário da aula terminar quando então podia voltar para casa sem se preocupar que os pais ficassem sabendo. Ele tinha que fazer isso pois já não suportava mais a vergonha de não saber responder as perguntas que a professora lhe fazia. Suas mãos viviam inchadas pela aplicação da palmatória. Sim, a palmatória, sabem o que era isso? Era uma tábua cheia de furinhos em toda sua extensão que quando batida na palma da mão provocava imensa dor pela sucção provocada na pele. Esse era o castigo para quem não acertava as questões de aritmética. E o menino Sebastião já não suportava mais aquele sofrimento, matutava todo dia como poderia resolver aquela questão, pois seu pai nem mesmo uma simples tabuada podia comprar para ele. Certo dia, na hora do recreio, momento que todos aproveitavam para fazer um lanche, o menino Sebastião vislumbrou uma saída para seu dilema. Tinha trazido de casa uma deliciosa pamonha que sua mãe tinha preparado para seu lanche, e próximo a ele uma linda menina estudava uma tabuada e parecia não ter trazido lanche. Astuto, vislumbrou ali a sua oportunidade, mas envergonhado não se dirigiu a ela, simplesmente tirou do embornal a pamonha e começou a tirar as palhas vagarosamente diante da colega. A garota, vendo a pamonha exclamou:
_Puxa que pamonha bonita!
O menino Sebastião não se fez de rogado, soltou a pergunta que não queria calar:
_Quer trocá-la por sua tabuada?
Sem pestanejar, a garota aceitou. Assim, tabuada prá cá e pamonha prá lá, o menino Sebastião pegou em suas mãos aquele precioso encarte, que para muitas famílias da época, inclusive a sua, era um objeto caro, inacessível. Ficou sem lanche naquele dia, mas certamente dera um largo passo em sua vida.
O menino Sebastião tomou em suas mãos trêmulas aquele livrinho pequeno, nem notou que estava meio amarelado e com algumas folhas esfaceladas. Tinha ainda marcas de ruge, coisas de garotas, mas isso não tinha importância, o necessário estava ali. Desse dia em diante se dedicou com afinco ao estudo de todas as operações, e tamanha era a sua ânsia de aprender que quinze dias depois já tinha gravado na mente todas as somas, divisões, multiplicações e adições. Desvendara enfim o segredo que o fazia sofrer tanta vergonha perante os outros alunos. Não sofreria mais com as palmatórias, e naquela segunda feira de março de 1944, ele se preparou calmamente para o seu dia de glória. Tomou banho na água morna que sua mãe lhe preparara na bacia e vestiu sua melhor roupinha. Não calçou sapatos, nem tênis ou chinelos porque não tinha, e chegando a porta, fitou longamente a trilha que levava a escola, estava pronto.
Na sala de aula, quando foi chamado pela professora ao teste oral de matemática, o menino Sebastião surpreendeu a todos com tamanha sabedoria e respostas rápidas. Deu um show em todas as combinações que a mestra lhe aplicara. A temida palmatória não precisou ser usada, ficou onde estava, em cima da mesa da professora. 
Aquela aula foi sua redenção, não precisaria mais se esconder no bambuzal e agora era tratado com respeito e tornara-se um dos primeiros alunos da classe. O menino Sebastião não se formou numa universidade, mas graças a tabuada que adquirira tornou-se um bom negociante, tanto que ao longo de sua vida sempre  se saíra  bem nas empreitadas a que se dispunha. É uma lição de vida que devemos aproveitar, pois hoje, o sistema, se comparando as estatísticas pouco mudou desde aquela época. Talvêz você ache de graça na esquina um encarte de tabuada novinho, sem marcas de ruge ou com as folhas esfaceladas, mas freqüentar uma universidade ainda é inacessível para muitas famílias. E o saber, a almejada formação está na tabuada das universidades, ao custo de uma simples pamonha para os políticos, governantes e classes abastadas. Tornar a universidade viável as classes menos favorecidas é questão apenas de negociação e o querer deles. As vezes, um aluno pobre precisa apenas de um pequeno empurrão para transpor essas barreiras,  mas os altos custos impede sua entrada nesses centros de ensino, encerrando-o a condições de nunca poder mostrar seu verdadeiro potencial.
Essa historia da troca da pamonha pela tabuada é verdadeira e aconteceu com pessoa de meu conhecimento, especificamente com meu pai, e esse artigo não é um enigma como se propõe escrever esse site, mas tem todo o merecimento de constar dessa coluna.
Uma pamonha pelo saber. No longinquo ano de 1944 meu pai viveu esse drama, mas lutou com todas as suas forças de menino e superou, e hoje, com quase oitenta anos de idade relembra achando graça daqueles tempos. Com saudosismo comentou que deseja encontrar-se com a garota da tabuada para lembrá-la desse fato. Uma troca que valeu o seu futuro e certamente foi boa para ela também, pois naquele dia, não se sabe por que, ela não trouxera lanche para a escola. Seriam esses desencontros preparados por alguma força maior? Os Deuses da sabedoria vendo a grande necessidade do menino Sebastião, prepararam tudo isso? Pode ser, mas a certeza que tenho mesmo é que aquela troca viera bem a calhar para o meu velho, e hoje, nesta página renovo minhas homenagens a ele, que foi e sempre será um dos meus heróis favoritos.
Autor: Joel Di Oliveira – enigma.com /Todos os direitos reservados.