quinta-feira, 28 de abril de 2011

TRAVESSIA



Nas asas de um beija-flor

Sebastiana Maria de Oliveira
O relato que descrevo a seguir foi vivenciado por quatro pessoas, sendo duas de idade adulta e dois adolescentes com idade entre doze e dezesseis anos. Para lhes poupar de qualquer constrangimento não citarei nomes, e nenhum desses indivíduos, posso afirmar com conhecimento de causa, são pessoas influenciáveis. Portanto, o que me relataram não pode ser considerado loucura, ilusão coletiva ou qualquer devaneio. Bem vamos aos fatos, tinham viajado até esta localidade por motivo de doença de sua avó, senhora de sessenta e dois anos de idade que sofrera nos dias anteriores um derrame cerebral. Socorrida foi Internada para tratamento no hospital da cidade mostrando certa recuperação o que deixou todos bem animados. Durante a internação sempre foi bem cuidada pelas enfermeiras e assistida pela equipe de médicos da casa de saúde. Mas quem ficou todo o tempo ao seu lado foi a nora, essa a ajudava a se virar na cama e cuidava de tudo que ela precisava. O derrame impossibilitou o lado direito inclusive a fala, mas poupou-lhe o cérebro. Certamente isso a fazia sofrer demais, pois compreendia tudo que estava acontecendo ao seu redor. Sabia que seu estado não era dos melhores. E não era mesmo, devia ela pensar que talvez nunca mais pudesse voltar a sua casa. Como ficaria seu único filho, seus netos, sua casa e suas coisas?! Eram perguntas que certamente passavam pela sua cabeça. Ela era dessas pessoas que gostava imensamente de plantas, principalmente de samambaias, tinha vários vasos com todas as variedades. Mas adorava também os beija-flores que visitavam o alpendre da casa para tomar da água adocicada que ela lhes preparava diariamente. Mas no terceiro dia, a melhora que demonstrara no dia anterior desapareceu de seu rosto. Foi acometida de mais um derrame e isso fez com que todos sofressem ainda mais, as esperanças estavam chegando ao fim.


E era realmente o fim, na tarde do terceiro dia, por volta das dezesseis e trinta ela se entregou aos ceus. Nos braços de sua nora deu um último suspiro, longo, difícil, mas parecia que tirava de suas costas um enorme peso. No mesmo instante, as quatro pessoas citadas no início desse texto se encontravam em sua casa. Esperavam a hora de descerem até o hospital para a visita diária.  Mas não foi mais necessário, no exato instante da morte de sua avó, um beija-flor adentrou as dependências da casa, sobrevoou todas as coisas como se despedisse e em seguida eletrocutou-se na boquilha da lâmpada da sala, caindo morto aos olhos de todos que estavam na sala. Em seguida alguém chegou trazendo a triste notícia da morte de sua querida avó. Pode ser coincidência o pequeno pássaro ter morrido daquela forma no exato momento em que essa pessoa também falecia no hospital. Mas agir daquela forma, ir em todos os quartos sobrevoando os objetos e depois eletrocutar-se é bastante estranho, mesmo porque portas e janelas estavam abertas e todos estavam assentados e quietos. Seria aquele beija-flor um mensageiro de sua morte? Teria vindo naquele crucial momento o seu espírito para uma última visita a sua casa? Seria o desespero do espírito em busca de um socorro?


São perguntas que eu me faço até hoje, e certamente nunca terei as respostas. Mas em sonhos, três meses depois, uma dessas pessoas citadas acima tivera o que se pode tomar como uma resposta. Sonhou que a viu assentada numa cadeira num imenso corredor e que logo depois uma menininha de cabelos bem amarelos a tomou pela mão e a conduziu por uma das várias portas. Certamente era seu anjo da guarda que a estava guiando para o lugar que lhe estava reservado. E quando de sua morte, provavelmente chegou ali nas asas dos beija-flores. Naquele gesto, agradeciam os pequenos pássaros, o cuidado que lhes dispensara a bondosa senhora.

domingo, 10 de abril de 2011

FORÇAS SOBRENATURAIS

__A morte terrena de minha mãe e a aparição das luzes tornaram ainda maior a minha certeza de que não estamos sós. Existem dimensões que não nos são palpáveis, e quando necessário seres iluminados que habitam esses mundos recebem permissão para interferir em nossas vidas. Acredito serem enviados de Deus, anjos intermediários entre o homem e um Ser Supremo. E refletindo sobre tais fatos lembrei-me de um causo contado por minha mãe que envolveu ela, meu pai e eu, consequentemente. Aconteceu quando eu tinha apenas quatro anos e estávamos arranchados para a colheita do café lá na fazenda da Gurita, ao sul da cidade de Bambuí, Estado de Minas Gerais. Conta minha mãe que meu pai tinha ido ao povoado comprar mantimentos e pelas horas que tinha saído já deveria ter chegado. Era tarde da noite e ela já estava impaciente por sua demora. Pensou ela que talvez tivesse encontrado com amigos para beber e perdera a hora ou talvez pudesse também estar a vadiar nas casas de mulheres de vida fácil. E para uma mulher ficar sozinha à noite com uma criança certamente não era recomendável. Minha mãe já estava uma pilha de nervos quando ouviu barulho de cascos de cavalo à galope. Era ele, e nem bem soltou o pobre animal, meu pai adentrou cambaleando tentando se segurar na pequena lareira construída sobre troncos. Minha mãe quis tirar satisfações mas ele descontrolado com o falatório enfureceu-se, e repentinamente sacou de um punhal para agredí-la. Eu dormia num pequeno catre improvisado e acordei assustado com o barulho. Em minha inocência eu não entendi bem o que estava acontecendo mas aprontei o maior berreiro que certamente acordou toda a bicharada da floresta. Vi os dois se debatendo no chão e notei que minha mãe começou a fraquejar pois meu pai era um rapagão bastante forte. Desesperada ela clamou aos céus por socorro e naquele instante, como num passe de mágica, meu pai tombou pesadamente no chão. 
Não se sabe se por efeito do álcool ou por intervenção divina. No dia seguinte bem cedo quando minha mãe foi apanhar água no riacho, inexplicavelmente viu o punhal fincado na areia da praia.  Como ele foi parar ali ela nunca soube. E meu pai, sem que ninguém lhe obrigasse ou pedisse nunca mais ingeriu bebidas alcoólicas, tornando-se um exemplo dentro de casa. Alguma força agiu naquele momento em que minha mãe clamou por ajuda, fazendo com que ele desmaiasse e o punhal desaparecesse de suas mãos. E esta mesma força age na vida de cada um de nós, basta ter sensibilidade bastante para acreditar. Por sermos demasiadamente materialistas sempre achamos que tudo que acontece é  coincidência. Mas não é, chegará o tempo em que o homem compreenderá todos os mistérios que regem a existência na terra.