sábado, 26 de março de 2011

O HOMEM QUE VIRAVA CUPIM

__Não quero impressionar e acreditem se quiserem, mas já que estou falando do sobrenatural, não vou me eximir de lhes contar mais esse. Essa conto foi vivenciado na década de 1950 e envolveu diretamente um dos irmãos de meu avô Luiz. Para que se situem melhor, Fortunato foi o primeiro filho de um imigrante português com uma índia chamada Jaçanâ. O homem saíra bem as fuças do pai como se dizia na época. Ainda solteiro e rapagão forte, tinha nas veias doses desequilibradas do sangue índio com o português. Era devasso, qualidade ou defeito que nem todos os filhos herdaram. Envolvido com mulheres de vida fácil bebia da branquinha como ninguém, e isto o aproximou de um suposto amigo que mais poderia ser considerado como inimigo. A suposta amizade em questão tinha o dom da feitiçaria, prática muito promovida numa comunidade próxima do povoado de Bambuí. A convivência faz-nos adquirir sem perceber as qualidades e defeitos das pessoas com quem nos relacionamos, e para isso existe um ditado: Dize-me com quem andas que lhe direi quem és. Pura verdade, acabou que Fortunato aprendera a arte. Digo arte porque ele não a usava para fazer mal à ninguém, somente para se proteger quando aprontava bagunça e era obrigado à sair do povoado à galope com a polícia atráz. Todo fim de semana era a mesma coisa, lá pelas tantas ouvia-se o galope do cavalo de fortunato sendo perseguido por uma meia dúzia de soldados pela rua afora. Numa dessas perseguições, decidiram os agentes ir mais além para ver se conseguiam deter o velhaco. Naquela noite fortunato quase fora capturado próximo à região do Mato Frio. Com os cavalos ofegantes pela cavalgada forçada os praças avistaram o bagunceiro, e dessa vez eles tinham uma vantagem, a lua estava tão clara que a noite parecia dia. Para se safar, Fortunato teve que usar do aprendizado que tivera com o amigo Fulô, macumbeiro afamado e temido do Barreiro. Deteve o animal e pulou no chão balbuciando algumas palavras e instantaneamente se transformou num enorme cupim. Chegando os praças ao local, somente viram seu cavalo pastando inocentemente

Acreditem, ele nunca foi capturado nas inúmeras vêzes que aprontou no povoado. E isso o encorajava à fazer o que bem queria. Temido, tinha fama de ser briguento, mas em casa com os seus era de imenso respeito e bondade. Por muitas vêzes achegou-se ao meu avô Luiz e lhe propôs ensinar as tais rezas, mas ele nunca quis. Dizia com seu vozeirão: 
Luiz, tem que aprender Luiz! Se quizer posso te ensinar!…
De grande estatura e corpulento usava como meu avô grossas calças de algodão tecido manualmente, e na cintura, preso por um corrião, levava um punhal de fio bem sensível. E não era só essas que ele aprontava não, nem assombração dava volta no caboclo. Certa noite já bem tarde, voltava ele de um pagode com o cavalo à passo, e quando passou por uma cava funda do caminho escutou um grito no outro lado da encosta. Achou que fosse algum companheiro e respondeu ao chamado. Novamente escutou o grito mais perto. Assim um grita de cá outro de lá, foi até que deu de topo com o trem que não era amigo nenhum, era o capêta. Foi o pandemônio, engalfinharam-se por um bom tempo rolando no chão, mas Fortunato, bastante arranhado acabou vencendo a contenda. Contou meu avô que nessa noite o irmão chegou em casa com a camisa em tilangos, mas nem por isso amedrontara-se. Era sabido por todos que toda vez que ele passava naquela cava, o medonho o cercava. E como era amante de uma boa briga, o pau comia. Mas um dia, cansado das farras e molecagens ajuizou-se. Casou-se e foi morar em Uberaba, onde criou família e morreu bem velhinho. 
 Texto e ilustração: Joel D.Oliveira / Todos os direitos reservados (Cópias poderão serem solicitadas por e-mail  e deverão conter créditos ao autor e o Blog.)